A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15,00% ao ano, na sua 276ª reunião[1], reforça a postura de prudência do Banco Central diante de um cenário ainda marcado por incertezas relevantes, tanto no ambiente internacional quanto na dinâmica doméstica de inflação.
A manutenção do patamar restritivo de juros indica que o processo de convergência inflacionária segue em curso, mas exige atenção constante, sobretudo em um contexto de expectativas ainda acima das metas estabelecidas pelo regime de metas de inflação.
No plano externo, o Banco Central destacou que o ambiente global continua instável, influenciado pela condução da política econômica nos Estados Unidos e por seus reflexos sobre as condições financeiras internacionais.
Para economias emergentes como o Brasil, esse cenário impõe desafios adicionais, especialmente diante de tensões geopolíticas e de possíveis movimentos abruptos de fluxos de capitais, câmbio e preços de commodities.[2]
No âmbito doméstico, os indicadores recentes apontam[3] uma trajetória de moderação do crescimento econômico, embora o mercado de trabalho ainda apresente sinais de resiliência.
Ao mesmo tempo, apesar de algum arrefecimento observado na inflação cheia e em medidas subjacentes, os níveis permanecem acima do objetivo central perseguido pela autoridade monetária. Esse quadro reforça a necessidade de manter a política monetária em território contracionista por tempo suficiente para garantir a reancoragem das expectativas.
As projeções captadas pela pesquisa Focus[4] continuam sugerindo inflação acima da meta nos próximos anos, o que representa um dos principais desafios para a credibilidade do processo desinflacionário.
Expectativas persistentemente elevadas tendem a dificultar o trabalho do Banco Central, pois influenciam decisões de preços, salários e contratos, prolongando a inércia inflacionária.
O Copom também reconheceu[5] que o balanço de riscos segue mais complexo do que o usual. Entre os fatores que podem pressionar a inflação para cima, destacam-se a possibilidade de desancoragem prolongada das expectativas, uma inflação de serviços mais resistente do que a prevista e combinações adversas entre política fiscal e choques externos que possam resultar em depreciação cambial persistente.
Por outro lado, o Comitê também considera riscos de baixa, como uma desaceleração doméstica mais intensa, uma perda de dinamismo global mais pronunciada ou mesmo recuos relevantes nos preços internacionais de commodities[6].
Esse conjunto de incertezas explica a ênfase recorrente do Banco Central em uma estratégia guiada por dados, calibrada reunião a reunião, sem compromissos automáticos com trajetórias rígidas de juros.
Outro aspecto importante mencionado na comunicação é o acompanhamento atento dos impactos do ambiente geopolítico e da política fiscal doméstica sobre os ativos financeiros e sobre a transmissão da política monetária[7].
Em economias com elevada sensibilidade a choques externos, a interação entre juros, câmbio, risco soberano e expectativas torna-se central para a eficácia da política monetária.
Ao manter a Selic em 15%, o Banco Central sinalizou que o nível atual de restrição ainda é considerado compatível com a convergência da inflação ao redor da meta no horizonte relevante.
Ao mesmo tempo, reafirma que a política monetária também tem papel de suavizar flutuações excessivas da atividade e contribuir para um ambiente macroeconômico mais estável, condição essencial para o crescimento sustentável.
O Copom também deixou aberta a possibilidade de que, caso o cenário esperado se confirme, possa iniciar um processo gradual de flexibilização monetária já na próxima reunião.
No entanto, essa transição dependerá do grau de confiança na trajetória de convergência da inflação, da evolução das expectativas e da consolidação dos canais de transmissão da política monetária.
O momento atual, portanto, é caracterizado por um equilíbrio delicado, em que a inflação apresenta sinais de desaceleração, mas ainda exige vigilância, pois o crescimento perde força, mas o mercado de trabalho permanece firme e as expectativas continuam pressionadas, exigindo uma postura de cautela.
Em síntese, o próximo ciclo da política monetária brasileira dependerá, em grande medida, da consistência entre política fiscal, estabilidade externa e credibilidade institucional do regime de metas.
[1] Banco Central do Brasil. Comunicado da 276ª Reunião do Copom. Brasília, 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br.
[2] BIS – Bank for International Settlements. Annual Economic Report 2025: Global Financial Conditions. Basileia, 2025.
[3] Banco Central do Brasil. Relatório de Inflação. Brasília: BCB, edições recentes.
[4] Banco Central do Brasil. Pesquisa Focus – Expectativas de Mercado. Brasília, 2026.
[5] Banco Central do Brasil. Ata do Copom – Avaliação de riscos inflacionários. Brasília, 2026.
[6] FMI – Fundo Monetário Internacional. World Economic Outlook Update. Washington, 2025.
[7] OCDE. Monetary Policy Transmission in Emerging Markets. Paris, 2024.
Leandro Oliveira Leite. Servidor público federal, analista do Banco Central do Brasil (BCB), atualmente trabalhando no CADE na área de condutas unilaterais, possui graduações em Administração, Segurança Pública e Gestão do Agronegócio e especialização em Contabilidade Pública. Tem experiência na parte de supervisão do sistema financeiro e cooperativismo pelo BCB, bem como, já atuou com assessor técnico na Casa Civil.
A digitalização das finanças vem moldando um novo paradigma na economia mundial, no qual ativos passam a ser registrados, verificados e negociados por meio de tecnologias descentralizadas. Nesse contexto, a tokenização desponta como uma das inovações mais disruptivas, especialmente quando aplicada a ativos sustentáveis, pois combina rastreabilidade ambiental, segurança jurídica e integração internacional. Para o Brasil, potência agroambiental e líder em inovação financeira, esse movimento representa uma oportunidade singular de reposicionar o agronegócio no mercado de capitais global. Mas também exige atenção aos impactos concorrenciais, às transformações regulatórias e aos riscos de concentração econômica em novas infraestruturas tecnológicas.
À medida que o crédito rural público se torna cada vez mais restrito devido às limitações fiscais e ao aumento das despesas obrigatórias, cresce a necessidade de fontes privadas de financiamento para o agro. A demanda por recursos é crescente e se intensifica diante de pressões internacionais pela adoção de técnicas sustentáveis, pela mensuração de emissões e pela certificação ambiental. É nesse ponto que títulos privados como CPRs e CRAs verdes passam a desempenhar papel central, pois representam instrumentos ágeis e escaláveis para financiar a transição ecológica no campo brasileiro. A tokenização amplia ainda mais seu potencial ao convertê-los em ativos digitais negociáveis globalmente, reduzindo custos, democratizando o acesso ao investidor estrangeiro e aumentando a liquidez em mercados secundários.
A adoção de blockchain nesse processo garante um nível de rastreabilidade e governança jamais visto no financiamento agrícola tradicional. Cada token pode conter, de forma criptografada, todo o histórico ambiental, social e financeiro do ativo que representa, incluindo dados de emissões, certificações, mapas geoespaciais e auditorias independentes. Isso facilita a conformidade com as exigências internacionais de sustentabilidade e aumenta a confiança do investidor global, especialmente fundos que atuam sob regras rígidas de disclosure, como ISSB, ICMA, EU Taxonomy e Task Force on Climate-Related Financial Disclosures.
Ao mesmo tempo, a tokenização emerge como instrumento competitivo no ecossistema financeiro brasileiro. A possibilidade de fracionamento de títulos, a eliminação de intermediários tradicionais e a liquidação automatizada via smart contracts podem reduzir barreiras de entrada, promover inclusão financeira e ampliar a concorrência entre ofertantes de crédito agrícola e plataformas de negociação. Contudo, como ocorre em qualquer transformação estrutural, o avanço desse mercado não está isento de riscos.
A adoção de blockchain e infraestrutura de tokens demanda plataformas tecnológicas robustas, muitas delas operadas por poucos agentes, o que pode gerar riscos de concentração, dependência tecnológica e fechamento de mercado. A estrutura das redes distribuídas pode parecer descentralizada, mas sua governança, padrões técnicos e integração podem se tornar pontos de poder econômico.
A integração de ativos tokenizados à lógica ESG global também tem implicações concorrenciais relevantes. Países que adotarem rapidamente sistemas de rastreabilidade digital e certificação robusta tendem a atrair mais capital verde e se posicionar de forma mais competitiva no cenário internacional. Como o Brasil possui vantagens naturais, como produção agrícola de baixo carbono, abundância de biomassa e tecnologia de agricultura de precisão, a tokenização pode acelerar essa vantagem estratégica. Ao garantir que investidores estrangeiros tenham acesso a títulos verdes brasileiros com rastreabilidade em tempo real e conformidade regulatória verificável, o país se coloca na vanguarda das finanças sustentáveis.
Contudo, esse movimento só será sustentável se acompanhado de um arcabouço regulatório claro, competitivo e inclusivo. É necessário assegurar que os pequenos e médios produtores rurais, frequentemente excluídos do crédito privado tradicional, sejam incorporados ao novo ecossistema. A tecnologia pode ser utilizada para reduzir assimetrias informacionais e permitir que tokens lastreados em suas CPRs sustentáveis sejam adquiridos diretamente por investidores de impacto, fundos internacionais ou cooperativas financeiras. Com isso, a tokenização pode não apenas suprir a lacuna deixada pelo crédito público, mas também promover maior inclusão produtiva no campo.
Em síntese, a tokenização de ativos sustentáveis representa uma convergência entre tecnologia, governança ambiental, inovação financeira e política concorrencial. Trata-se de uma oportunidade histórica para reposicionar o agronegócio brasileiro no mercado global, atrair capital estrangeiro, reduzir dependência do financiamento público e promover práticas sustentáveis em larga escala. Se conduzido com equilíbrio, o Brasil poderá se tornar referência mundial em finanças verdes digitais e consolidar um modelo em que tecnologia e sustentabilidade impulsionam desenvolvimento econômico, inclusão social e competitividade global.
Leandro Oliveira Leite. Servidor público federal, analista do Banco Central do Brasil (BCB), atualmente trabalhando no CADE na área de condutas unilaterais, possui graduações em Administração, Segurança Pública e Gestão do Agronegócio e especialização em Contabilidade Pública. Tem experiência na parte de supervisão do sistema financeiro e cooperativismo pelo BCB, bem como, já atuou com assessor técnico na Casa Civil.
O mercado de títulos privados do agronegócio brasileiro está vivendo uma transformação sem precedentes. Enquanto pesquisadores da PUC-Rio trabalham no projeto RWA Sustentável para tokenizar Cédulas de Produto Rural (CPR) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) verdes via blockchain[1], observamos a consolidação de um novo paradigma no financiamento agrícola que vai muito além da simples digitalização de ativos.
A revolução silenciosa dos instrumentos privados
O crescimento explosivo dos títulos privados do agro não é acidental. O agronegócio brasileiro atingiu R$ 2,72 trilhões em 2024, representando 23,2% do PIB nacional, e projeta-se para alcançar 29,4% em 2025, o maior patamar em 22 anos. Com o PIB do agronegócio crescendo 6,49% no primeiro trimestre de 2025[2], o setor privado assumiu o protagonismo no financiamento rural. Os números são eloquentes e o estoque total de títulos privados do agronegócio alcançou R$ 1,203 trilhão em novembro de 2024, crescimento de 31,5% em 12 meses[3]. A CPR registrou crescimento de 59% no período, enquanto as emissões na safra 2024/25 dispararam 68% até fevereiro[4].
Esta migração para instrumentos privados reflete uma mudança estrutural profunda. O modelo tradicional de crédito subsidiado está dando lugar a um ecossistema financeiro mais sofisticado, onde produtores rurais podem acessar capital diretamente do mercado de capitais, sem dependência exclusiva do Estado ou de intermediários bancários tradicionais.
A criação da CPR Verde pelo Decreto 10.828/2022⁴ sinaliza uma tendência irreversível. A sustentabilidade deixou de ser um “nice to have (bom ter)” para se tornar um requisito básico de acesso ao capital global. O projeto do LIFT Learning, ao desenvolver infraestrutura para negociação de ativos sustentáveis tokenizados, reconhece que critérios ESG não são apenas demandas de investidores conscientes, mas sim condições de competitividade no mercado internacional.
A tokenização de CPRs e CRAs verdes representa mais que uma inovação tecnológica, é uma resposta estratégica à necessidade de atrair capital estrangeiro para projetos rurais sustentáveis. Quando esses títulos podem ser emitidos, liquidados e negociados via blockchain pública com compliance regulatório e rastreabilidade ambiental⁵, o agronegócio brasileiro ganha acesso a um pool de investidores globais ávidos por oportunidades que combinem retorno financeiro com impacto socioambiental positivo.
Embora promissor, esse novo modelo enfrenta obstáculos significativos. A assimetria de informações ainda persiste, muitos investidores nacionais e internacionais desconhecem as oportunidades oferecidas pelos ativos do agronegócio[5]. Paralelamente, pequenos e médios produtores enfrentam dificuldades para acessar esses instrumentos, que exigem conhecimento técnico e garantias que nem sempre possuem.
O exemplo da aquicultura é emblemático. Apesar do potencial de crescimento do setor, a dependência histórica do crédito rural subsidiado – que representa apenas 1% dos recursos do Plano Safra – limita severamente o desenvolvimento da cadeia produtiva[6]. A transição para instrumentos privados poderia liberar esse potencial, mas requer capacitação dos produtores e desenvolvimento de produtos financeiros adequados às especificidades do setor.
As AgFintechs emergem como protagonistas nesta transformação, representando 25% das startups do agronegócio na categoria “antes da porteira”[7]. Essas empresas estão preenchendo lacunas críticas: simplificando processos, reduzindo custos de transação e criando pontes entre produtores rurais e investidores urbanos.
A parceria entre Banco Central, Fenasbac, Vert Capital e Gnosis no projeto RWA Sustentável exemplifica como a colaboração público-privada pode acelerar a inovação. Ao desenvolver padrões para tokenização de ativos sustentáveis e integração com o Drex (o Real digital), essa iniciativa pode posicionar o Brasil como líder global em finanças digitais aplicadas ao agronegócio.
O futuro dos títulos privados do agronegócio parece promissor, mas não está isento de riscos. A possibilidade de greenwashing, emissão de títulos supostamente verdes sem comprovação efetiva de práticas sustentáveis, representa uma ameaça à credibilidade do mercado[8]. A criação de mecanismos robustos de auditoria e certificação será fundamental para manter a confiança dos investidores.
Outro desafio é garantir que a sofisticação financeira não acentue desigualdades no campo. É essencial que os benefícios da tokenização e dos novos instrumentos financeiros alcancem não apenas grandes produtores, mas também cooperativas e agricultores familiares.
A convergência entre sustentabilidade, tecnologia blockchain e mercado de capitais está redefinindo o financiamento do agronegócio brasileiro. Iniciativas como o RWA Sustentável não são apenas experimentos acadêmicos, mas laboratórios para o futuro das finanças rurais.
O Brasil tem a oportunidade única de liderar essa transformação, aproveitando sua força no agronegócio para criar um novo paradigma de financiamento sustentável. O sucesso dessa empreitada dependerá da capacidade de equilibrar inovação tecnológica com inclusão social, eficiência de mercado com sustentabilidade ambiental.
Os próximos anos serão decisivos para determinar se conseguiremos construir um sistema financeiro rural mais eficiente, transparente e sustentável ou se permaneceremos presos aos gargalos do modelo tradicional.
[2] CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL. PIB do agronegócio registra crescimento de 6,49% no primeiro trimestre de 2025. Brasília: CNA, 17 jun. 2025.
[3] CANAL RURAL. Títulos do agronegócio crescem mais de 30% e atingem R$ 1,2 trilhão. 6 jan. 2025.
[4] MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Emissões de Cédulas de Produto Rural na safra atual cresceram 68% até fevereiro. Brasília: MAPA, 24 mar. 2025.
[5] CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA AGRICULTURA. Financiamento privado do agronegócio. Brasília: CNA, 2022.
[6] LEITE, Leandro Oliveira. Fomento à Aquicultura: Instrumentos Privados de Financiamento. Monografia (Graduação em Gestão de Agronegócios) – Universidade de Brasília, 2023, p. 59.
[7] EMBRAPA. Radar Agtech Brasil 2022. Brasília: Embrapa, 2022.
[8] Tokenização de Ativos Sustentáveis e Instrumentos Privados de Financiamento: Perspectivas para o Agronegócio Brasileiro e a Economia Verde Global. Documento de trabalho, 2025
O Banco Central do Brasil (BCB) apresentou em agosto de 2025 a quinta edição do Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticos (RIS)[1], consolidando uma trajetória iniciada em 2021 que posiciona a autoridade monetária brasileira na vanguarda internacional da regulação de sustentabilidade financeira. A publicação representa um marco evolutivo na transparência institucional e na integração de fatores ESG[2] ao arcabouço prudencial do sistema financeiro nacional.
Esta nova edição abrange um ciclo anual completo de atividades desenvolvidas pela autoridade monetária, apresentando balanço detalhado das iniciativas implementadas e delineando o horizonte estratégico para os próximos períodos. A participação do BCB em projetos governamentais de alcance nacional, incluindo a elaboração da taxonomia sustentável nacional, exemplifica a coordenação interinstitucional necessária para o avanço da agenda ESG no país.
Desde a primeira edição do RIS, o BCB tem aprimorado sistematicamente sua abordagem à sustentabilidade financeira. A quinta edição reflete não apenas a maturidade institucional alcançada, mas também a resposta proativa aos desafios impostos pelas mudanças climáticas e pelas exigências crescentes de transparência do mercado financeiro global.
O relatório se insere no contexto da Agenda BC#[3], estratégia institucional estruturada em quatro pilares fundamentais: inovação, inclusão, sustentabilidade e competitividade. Esta integração demonstra como a sustentabilidade deixou de ser um tema periférico para se tornar elemento central na supervisão prudencial e na formulação de políticas monetárias.
A evolução do RIS acompanha tendências internacionais observadas em jurisdições como União Europeia e Reino Unido, onde bancos centrais já incorporaram sistematicamente variáveis climáticas em seus processos decisórios. O Brasil, ao adotar essa abordagem, fortalece sua credibilidade junto a investidores institucionais internacionais e facilita a atração de capital para projetos sustentáveis.
O RIS 2025 consolida importante produção técnica desenvolvida pelo BCB na quantificação de riscos climáticos para o sistema financeiro. A autoridade monetária tem investido em modelagem econométrica sofisticada para estimar potenciais impactos econômicos decorrentes de cenários adversos de transição climática, fornecendo às instituições financeiras parâmetros objetivos para dimensionamento de possíveis perdas.
A construção da matriz de riscos estratégicos institucionais revela metodologia robusta de identificação e mensuração de incertezas que podem afetar o cumprimento da missão do BCB. A análise conjunta entre probabilidade de ocorrência e magnitude de impactos permite priorização eficiente dos recursos institucionais na gestão de riscos relacionados ao objetivo estratégico de “Promover finanças sustentáveis e contribuir para redução de riscos socioambientais e climáticos”[4].
A recente conclusão de pesquisa especializada em estabilidade financeira relacionada a fatores climáticos revela que o risco de crédito permanece como principal canal de transmissão de choques climáticos para o sistema financeiro. Para riscos físicos, os canais mais relevantes incluem danos a ativos de famílias e empresas, interrupção de atividades produtivas e impactos na produtividade agrícola. Já para riscos de transição, destacam-se aumentos de custos regulatórios e barreiras comerciais decorrentes de políticas internacionais de baixo carbono[5].
Estes desenvolvimentos técnicos representam evolução qualitativa na abordagem regulatória, migrando de orientações principiológicas para ferramentas quantitativas que permitem mensuração objetiva de riscos e oportunidades climáticas no setor financeiro brasileiro.
O RIS 2025 identifica oportunidades substanciais na expansão do mercado de finanças sustentáveis brasileiro. O crédito verde, que inclui financiamentos para projetos de energia renovável, eficiência energética e tecnologias limpas, apresenta potencial de crescimento exponencial, especialmente considerando os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil.
O período analisado pelo RIS 2025 registra mudanças estruturais no arcabouço regulatório brasileiro, com destaque para a institucionalização de obrigações de divulgação de informações sustentáveis pelas instituições financeiras. Esta evolução normativa reflete alinhamento estratégico com tendências regulatórias globais, posicionando o Brasil entre as jurisdições mais avançadas em transparência ESG.
No segmento rural, as modificações implementadas no manual operacional específico integram considerações ambientais aos tradicionais critérios de análise creditícia. A eficácia dessas medidas pode ser observada nos resultados do Bureau de Crédito Rural: desde 2020, quando foram implementados os primeiros bloqueios automáticos, até maio de 2025, foram impedidas mais de 16 mil operações irregulares, evitando desembolsos superiores a R$ 6,3 bilhões[6].
Estes números demonstram a importância da integração entre critérios ambientais e análise de crédito, evidenciando que sustentabilidade e prudência financeira são objetivos convergentes na prática supervisora.
A função supervisora do BCB tem incorporado ferramentas tecnológicas avançadas para aprimorar o monitoramento de riscos socioambientais. O desenvolvimento de soluções baseadas em inteligência artificial para análise automatizada de relatórios de auditoria representa salto qualitativo na capacidade de processamento de informações ESG.
Essa modernização tecnológica permite análises mais abrangentes e sistemáticas, identificando padrões e tendências que seriam difíceis de detectar através de metodologias tradicionais. A aplicação de IA na supervisão também aumenta a eficiência operacional e reduz o tempo necessário para identificação de riscos emergentes.
Complementarmente, a realização de análises horizontais para verificação do cumprimento de requisitos de gerenciamento de riscos socioambientais oferece visão sistêmica das práticas adotadas pelas instituições supervisionadas, facilitando a identificação de melhores práticas e áreas que requerem aprimoramento.
A gestão das reservas internacionais do BCB tem demonstrado alinhamento prático com os princípios de sustentabilidade promovidos pela própria instituição no âmbito supervisório. A estratégia de alocação crescente em títulos sustentáveis, implementada desde 2021, evidencia que critérios ambientais podem ser integrados a decisões de investimento sem comprometer os objetivos fundamentais de preservação de valor, liquidez e segurança.
Esta prática institucional fortalece a credibilidade regulatória do BCB, demonstrando que as diretrizes emitidas para o mercado são também aplicadas internamente. A expansão gradual desses investimentos contribui para o desenvolvimento do mercado internacional de títulos verdes e sinaliza aos gestores de portfólio a viabilidade de estratégias de investimento sustentável.
A experiência acumulada na gestão de investimentos sustentáveis também oferece insights valiosos para orientação das instituições supervisionadas, criando base empírica para recomendações regulatórias baseadas em evidências práticas.
O RIS 2025 documenta esforços sistemáticos de promoção da inclusão financeira e cidadania, reconhecendo que estabilidade sistêmica e justiça social são objetivos interdependentes. A supervisão de conduta tem priorizado a identificação e gestão de vulnerabilidades sociais, desenvolvendo metodologias para proteção de consumidores financeiros em situação de fragilidade.
A estratégia de investimento sustentável em reservas internacionais também contribui para o desenvolvimento do mercado global de green bonds[7], criando demanda institucional que incentiva a emissão desses instrumentos por outros países e organizações multilaterais.
A incorporação de riscos climáticos na análise macroeconômica representa uma evolução natural da política monetária brasileira. Choques climáticos podem afetar preços de commodities, produtividade agrícola e infraestrutura, com impactos diretos na inflação e na atividade econômica.
O BCB tem desenvolvido modelos econométricos que capturam essas interações, permitindo decisões de política monetária mais informadas e responsivas a choques climáticos. Esta abordagem integrada fortalece a credibilidade da autoridade monetária e sua capacidade de manter a estabilidade de preços em um ambiente de crescente volatilidade climática.
Além disso, a análise de riscos sistêmicos incorpora cenários climáticos adversos, permitindo identificar vulnerabilidades sistêmicas antes que se materializem em crises financeiras. Essa capacidade antecipadora é crucial para a manutenção da estabilidade do sistema financeiro nacional.
Um dos aspectos mais significativos do RIS 2025 é sua antecipação às mudanças regulatórias derivadas da adoção dos padrões internacionais do International Sustainability Standards Board (ISSB)[8]. Até 2028, instituições financeiras relevantes deverão elaborar relatórios de sustentabilidade alinhados com essas diretrizes globais, harmonizando práticas de divulgação entre diferentes jurisdições.
Essa convergência representa não apenas um desafio operacional para as instituições, mas também uma oportunidade de acesso a mercados de capitais internacionais. Investidores globais valorizam crescentemente a comparabilidade de informações ESG, e o alinhamento com padrões do ISSB facilita a atração de capital estrangeiro para o Brasil.
Por fim, o BCB também tem participado ativamente da Network for Greening the Financial System (NGFS)[9], rede internacional que reúne bancos centrais e supervisores financeiros comprometidos com a sustentabilidade. Essa participação facilita o intercâmbio de melhores práticas e o desenvolvimento de padrões harmonizados entre diferentes jurisdições.
A quinta edição do RIS sinaliza desenvolvimentos regulatórios importantes para o horizonte 2025-2028. A implementação gradual dos padrões ISSB exigirá investimentos significativos em sistemas de informação e capacitação técnica por parte das instituições financeiras.
Simultaneamente, espera-se maior sofisticação nos requerimentos de capital relacionados a riscos climáticos. O Comitê de Basileia tem avançado em diretrizes para incorporação desses riscos no Pilar 1 do acordo, o que pode resultar em mudanças nos requerimentos prudenciais brasileiros.
O BCB também sinaliza interesse crescente no desenvolvimento de uma taxonomia sustentável brasileira, ferramenta que classificaria atividades econômicas segundo critérios ambientais e sociais. Esta taxonomia seria fundamental para orientar investimentos sustentáveis e facilitar a precificação adequada de riscos ESG.
Assim, essa quinta edição do RIS consolida a autoridade brasileira como instituição de referência global em sustentabilidade financeira. Mais do que um exercício de transparência, o relatório representa um roteiro estratégico para a transformação do sistema financeiro nacional.
[2] ESG: Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança) – conjunto de critérios utilizados para avaliar o desempenho de empresas e investimentos em questões ambientais, sociais e de governança corporativa.
[3] Agenda BC#: Estratégia institucional do Banco Central do Brasil estruturada em quatro pilares: inovação, inclusão, sustentabilidade e competitividade. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/acessoinformacao/agenda_bc
[4] A matriz de riscos estratégicos utiliza modelo de percepção por consenso seguido de expert judgment (julgamento de especialistas) para identificação e mensuração de riscos que podem afetar objetivos estratégicos da instituição.
[5] PEF: Pesquisa de Estabilidade Financeira – levantamento realizado pelo BCB junto às instituições financeiras para identificar riscos sistêmicos, incluindo canais de transmissão de riscos climáticos físicos e de transição.
[6] Bureau de Crédito Rural: sistema de informações creditícias específico para o setor agropecuário que utiliza tecnologias como georreferenciamento para análise de riscos ambientais e creditícios.
[7] Green bonds: Títulos verdes – instrumentos de dívida cujos recursos são destinados exclusivamente ao financiamento de projetos com benefícios ambientais ou climáticos.
[8] ISSB: International Sustainability Standards Board (Conselho Internacional de Padrões de Sustentabilidade) – órgão criado pela IFRS Foundation para desenvolver padrões globais de divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade. Mais informações em: https://www.ifrs.org/groups/international-sustainability-standards-board/
[9] NGFS: Network for Greening the Financial System (Rede para o Esverdeamento do Sistema Financeiro) – rede de bancos centrais e supervisores dedicada ao compartilhamento de melhores práticas e desenvolvimento de ferramentas de gestão de riscos ambientais e climáticos. Site oficial: https://www.ngfs.net
Leandro Oliveira Leite. Servidor público federal, analista do Banco Central do Brasil (BCB), atualmente trabalhando no CADE na área de condutas unilaterais, possui graduações em Administração, Segurança Pública e Gestão do Agronegócio e especialização em Contabilidade Pública. Tem experiência na parte de supervisão do sistema financeiro e cooperativismo pelo BCB, bem como, já atuou com assessor técnico na Casa Civil.
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Entre os dias 14 e 16 de maio de 2025, em Brasília, o Banco Central do Brasil (BCB) promoveu sua Conferência Anual, reunindo economistas, acadêmicos e autoridades globais para debater temas centrais da economia contemporânea. Com mais de 42 trabalhos acadêmicos selecionados dentre 330 submissões, o evento contou com brilhantes palestras magnas, com destaque para Jean Tirole (Prêmio Nobel de Economia) e Frank Smets, do Banco de Compensações Internacionais (BIS)[1].
Na abertura, Jean Tirole abordou a regulação de mercados em um contexto globalizado e digital, enfatizando como macrodados e algoritmos impõem novos desafios para a política de concorrência. Michael McMahon, da Universidade de Oxford, focou nos efeitos de choques (como energia e tensões geopolíticas) e sobre a regulação macroprudencial necessária para blindar o sistema financeiro diante de adversidades externas[2].
O encerramento destacou-se pela palestra de Frank Smets, chefe de análise econômica do BIS, que analisou a inflação nos EUA no pós-pandemia, atribuindo-a sobretudo à combinação expansionista de políticas fiscais e monetárias[3]. Smets apresentou evidências de estudos econômicos propondo que o superaquecimento inflacionário tem raízes na expansão fiscal, gerando reflexos diretos na dinâmica dos preços, ciclos econômicos e expectativas de diversos agentes.
A conferência revelou a crescente convergência entre inovação tecnológica e políticas econômicas. Foram amplamente discutidos sistemas como o Pix, o Open Finance e o projeto Drex (CBDC), bem como seus impactos na eficiência, inclusão financeira, interoperabilidade e desafios regulatórios. Especialistas internacionais avaliaram a importância da colaboração entre países para garantir governança e segurança em pagamentos digitais.
A sustentabilidade também mereceu destaque, vários painéis exploraram a integração de riscos climáticos à regulação financeira e avaliaram práticas ESG no sistema formal, temas alinhados à presidência brasileira do G20 e sua Trilha de Finanças. A criação do Centro de Excelência em Ciência de Dados e Inteligência Artificial do BCB foi citada como instrumento-chave para fortalecer as análises econômicas e a supervisão prudencial.
Durante o evento, foram apresentados os novos parâmetros prudenciais, alavancagem individual e maior exigência de liquidez solo, com implementação prevista entre 2025 e 2028, em conformidade com as recomendações de Basileia III. A governança corporativa e técnicas de mitigação de riscos, especialmente creditícios, também integraram a programação.
A inclusão financeira foi reforçada por evidências do sucesso do programa “Aprender Valor”, que já alcançou 5,6 milhões de alunos em mais de 3.000 municípios, ressaltando a necessidade de qualidade, e não apenas quantidade, no acesso aos serviços financeiros, em linha com compromissos do G20.
O uso de inteligência artificial e ciência de dados ganhou novo impulso, com o CdE IA[4] do BCB sendo citado como resposta às crescentes necessidades de processamento e supervisão de grandes volumes de informações econômicas e financeiras.
Também enfatizou-se a relevância de Open Data, interoperabilidade internacional e governança de dados, fundamentais para fortalecer a concorrência e a inovação no mercado financeiro, conforme discutido na Trilha de Finanças do G20.
A Conferência contou com a participação de renomadas instituições globais como BIS, IMF, BCs do Canadá, Reino Unido, Alemanha e Chile, além de representantes acadêmicos ligados a Oxford, Cambridge, USP e FGV. Essa diversidade reforça o caráter técnico e multidisciplinar do evento.
Ao promover o intercâmbio entre academia, mercado e poder público, reforça-se a reputação institucional e aprimora-se as bases técnicas da formulação de políticas públicas. A conferência se consolidou como espaço estratégico para reflexões que já moldam o horizonte regulatório até 2029.
A Conferência Anual 2025 do BCB evidenciou três mensagens centrais: a busca por políticas monetárias transparentes e alinhadas às evidências; a integração de inovação digital e sustentabilidade; e o fortalecimento da competitividade e governança no sistema financeiro nacional, com continuidade de iniciativas estratégicas rumo à resiliência econômica e social.
Leandro Oliveira Leite. Servidor público federal, analista do Banco Central do Brasil (BCB), atualmente trabalhando no CADE na área de condutas unilaterais, possui graduações em Administração, Segurança Pública e Gestão do Agronegócio e especialização em Contabilidade Pública. Tem experiência na parte de supervisão do sistema financeiro e cooperativismo pelo BCB, bem como, já atuou com assessor técnico na Casa Civil.
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O Banco Central do Brasil (BCB) iniciou oficialmente a construção de seu Planejamento Estratégico Institucional para o ciclo 2026-2029, em um momento em que o sistema financeiro global enfrenta mudanças aceleradas impulsionadas por tecnologias disruptivas, mudanças climáticas e a crescente demanda por regulação adaptativa. Esse novo ciclo é precedido por conquistas relevantes do BCB nos últimos anos, como o Pix, o Open Finance, o sandbox regulatório e os avanços na regulação prudencial. Agora, o desafio é desenhar uma nova agenda estratégica que mantenha o protagonismo da instituição no cenário internacional, sem perder de vista a estabilidade monetária, a inclusão financeira e a competitividade de mercado.
O processo de planejamento estratégico do BCB é conduzido com ampla participação interna. A Secretaria Executiva de Governança Institucional (Segov) lidera a fase diagnóstica com entrevistas, oficinas e aplicação de pesquisas com servidores. O objetivo é identificar os principais desafios que o Banco enfrentará nos próximos anos e, a partir disso, propor orientações estratégicas consistentes com sua missão institucional. O processo contempla três fases: diagnóstico (até julho de 2025), formulação de diretrizes (até novembro de 2025) e desdobramento em ações e indicadores (conclusão até junho de 2026).
A formulação desse novo ciclo tem como pano de fundo o acúmulo técnico da instituição e o aprendizado institucional obtido em iniciativas passadas. Segundo o Secretário-Executivo do BCB, Rogério Lucca, o engajamento dos servidores é central para que as diretrizes reflitam uma visão coesa e realista sobre o futuro do BC. O envolvimento transversal das unidades do Banco e a escuta ativa da liderança têm possibilitado a identificação de prioridades como resiliência institucional, adaptação tecnológica, estabilidade financeira e fortalecimento do papel do BC como regulador da concorrência.
A partir desse processo participativo, temas centrais para a agenda regulatória e concorrencial têm emergido com destaque. Um dos fóruns mais significativos nesse debate foi o 22º Encontro de Multiplicação do Conhecimento, ocorrido em maio de 2025, que integrou a iniciativa “Câmbio de Ideias”[1]. O evento reuniu técnicos e especialistas do BCB e de outras instituições para discutir temas emergentes com forte potencial de impacto regulatório.
A Teoria do Transporte Ótimo foi um dos temas mais inovadores discutidos, especialmente por suas aplicações em aprendizado de máquina e na precificação de ativos financeiros. Trata-se de um campo matemático sofisticado que permite reconfigurar modelos tradicionais de avaliação de risco e retorno. O uso dessa teoria para aprimorar algoritmos de inteligência artificial poderá tornar os modelos regulatórios mais eficientes, automatizados e sensíveis a padrões dinâmicos do mercado.
Outro tema de grande relevância foi o estudo sobre choques macroeconômicos e a forma como o mercado os interpreta. A construção de uma política monetária responsiva e bem calibrada depende, em grande parte, da capacidade do BCB de antecipar reações do mercado a eventos externos e internos. Incorporar elementos da teoria das expectativas adaptativas e utilizar big data para captar tendências de comportamento dos agentes pode ampliar a eficácia da política econômica.
A discussão sobre a regulação internacional de pagamentos e transferências aprofundou o debate sobre os desafios de integrar o Brasil a um ecossistema financeiro global interoperável. A crescente digitalização dos fluxos de capitais e a introdução de moedas digitais por bancos centrais (CBDCs) demandam uma regulação coordenada, capaz de garantir segurança jurídica, transparência, proteção ao consumidor e promoção de concorrência em serviços transfronteiriços.
Na dimensão prudencial, a relação entre governança corporativa e perdas com crédito também foi analisada sob uma perspectiva regulatória. O aprimoramento da governança de instituições financeiras permite maior resiliência frente a ciclos de crédito e melhora os processos de compliance. O BCB, por meio da supervisão baseada em risco, tem incentivado práticas mais sólidas de governança, que permitam antecipar deteriorações de carteira e reduzir os impactos sistêmicos de crises bancárias.
A pauta de sustentabilidade se consolidou como vetor estrutural da nova agenda estratégica. A análise dos impactos dos subsídios ao setor limpo, por exemplo, insere-se na preocupação do BCB com a transição ecológica e com o desenvolvimento de uma taxonomia verde robusta. O estímulo ao crédito verde e aos investimentos sustentáveis faz parte do compromisso da autoridade monetária com a Agenda BC#, que visa a integrar fatores ambientais, sociais e de governança (ESG) na supervisão e regulação financeira.
Além dos temas técnicos, o BCB também tem enfrentado desafios em relação à concorrência no sistema financeiro. A abertura de mercado promovida pelo Open Finance, as discussões sobre interoperabilidade de plataformas e a supervisão de grandes conglomerados tecnológicos que atuam no setor financeiro (os chamados “Big Techs”) exigem do BC instrumentos regulatórios modernos, alinhados às melhores práticas internacionais e sensíveis ao risco de concentração de mercado.
A agenda regulatória, portanto, caminha para uma atuação mais responsiva, centrada na análise de dados em tempo real, em modelos preditivos de supervisão e em mecanismos de resposta rápida a ineficiências concorrenciais. O papel do BC como promotor da concorrência se reforça com o uso de benchmarks internacionais e com a colaboração interinstitucional com entidades como o Cade, a CVM e o Tesouro Nacional.
A integração entre inovação e estabilidade também é vista como um dos principais eixos estratégicos. Iniciativas como o Drex (a moeda digital do BCB), o sistema de liquidação instantânea (Pix), a expansão do Open Finance e o avanço da tokenização de ativos têm potencial para mudar a estrutura do mercado financeiro nos próximos anos. O BC tem buscado garantir que essa transição seja segura, interoperável e pautada por princípios de proteção ao consumidor e fomento à concorrência.
No horizonte 2026-2029, espera-se também que o BC avance na agenda de educação financeira, inclusão digital e descentralização de serviços bancários. O fortalecimento do ambiente de inovação exige que as políticas públicas sejam acompanhadas por programas de capacitação e letramento digital, de modo a reduzir as desigualdades no acesso ao sistema financeiro.
Os avanços tecnológicos trazem oportunidades, mas também impõem riscos, como o uso indevido de dados, discriminação algorítmica e ampliação de assimetrias informacionais. Nesse sentido, a governança de dados, a proteção da privacidade e a supervisão de algoritmos se tornam temas centrais na agenda de supervisão tecnológica do BC.
O uso de inteligência artificial (IA) nos processos de regulação e supervisão tem crescido. O recém-criado Centro de Excelência em Ciência de Dados e IA do BCB visa desenvolver competências internas e diretrizes éticas para o uso seguro dessas tecnologias. A IA poderá ser utilizada para prever anomalias em comportamento financeiro, mapear riscos emergentes e calibrar políticas macroprudenciais.
Outro eixo importante será a internacionalização das políticas monetária e regulatória do Brasil. A presidência brasileira do G20 em 2024 reforçou o papel do BC em fóruns globais, ampliando o diálogo com outros bancos centrais sobre estabilidade macroeconômica, inclusão financeira e riscos climáticos. Essa projeção internacional deve continuar a ser prioridade no próximo ciclo estratégico.
A integração dos objetivos estratégicos com instrumentos regulatórios efetivos exige ainda uma governança institucional robusta. A adoção de métricas de desempenho, indicadores de impacto regulatório e mecanismos de accountability[2] são pilares que permitirão ao BC entregar valor público com maior transparência e eficiência.
A sustentabilidade fiscal e o controle da inflação seguirão sendo objetivos centrais, mas, diante das mudanças estruturais da economia, temas como finanças verdes, regulação da economia de dados e fomento à inovação financeira ganharão relevância na missão institucional do BC. A estabilidade do sistema financeiro agora depende também da sua capacidade de se adaptar às transições tecnológicas e ambientais.
Diante do exposto, os caminhos estratégicos do Banco Central do Brasil para 2026-2029 apontam para uma instituição cada vez mais integrada aos desafios do século XXI. A capacidade de equilibrar estabilidade, concorrência e inovação será decisiva para garantir um sistema financeiro robusto, inclusivo e sustentável, à altura das demandas de uma sociedade em constante transformação.
[1]Câmbio de Ideias é um evento interno para disseminação de conhecimentos adquiridos em soluções formais de aprendizagem.
[2] A palavra “accountability” vem do inglês e, embora possa ser traduzida como “responsabilidade” ou “prestação de contas”, seu significado vai além. Ela implica um compromisso mais amplo com a transparência, a responsabilização e a gestão dos resultados.
Leandro Oliveira Leite. Servidor público federal, analista do Banco Central do Brasil (BCB), atualmente trabalhando no CADE na área de condutas unilaterais, possui graduações em Administração, Segurança Pública e Gestão do Agronegócio e especialização em Contabilidade Pública. Tem experiência na parte de supervisão do sistema financeiro e cooperativismo pelo BCB, bem como, já atuou com assessor técnico na Casa Civil.
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Em 2025, o Banco Central do Brasil (BCB) completou seis décadas de atuação como autoridade monetária, cambial e regulatória do país. Desde sua fundação, em 1965[1], o BCB tem desempenhado um papel fundamental na estabilidade econômica brasileira, construindo credibilidade e se reinventando ao longo do tempo para acompanhar os avanços tecnológicos e as melhores práticas internacionais.
A celebração dessa trajetória, com a presença de ex-presidentes da autarquia, foi mais do que um momento de reconhecimento institucional – um olhar pelo retrovisor – sendo também uma reafirmação do papel proativo que o BCB tem assumido em nível internacional. A instituição não apenas se alinha com boas práticas globais, como também lidera inovações regulatórias e tecnológicas, com uma postura firme, estratégica e vanguardista.
O Banco consolidou-se como uma das instituições públicas mais inovadoras do Brasil. Um dos pontos mais destacados na cerimônia de seus 60 anos foi justamente a capacidade da autarquia de se manter na fronteira do conhecimento e da tecnologia, contribuindo não só para o progresso interno, mas também influenciando a agenda global de estabilidade e inovação financeira.
Após a implementação do Plano Real, que representou um divisor de águas no combate à hiperinflação, o Banco Central passou a ser liderado por presidentes que impulsionaram sua modernização institucional e a concorrência no sistema financeiro. Gustavo Loyola, que presidiu o BCB entre 1995 e 1997, teve papel relevante na transição entre os governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, reforçando o compromisso com a estabilidade de preços e a política monetária mais previsível, além de contribuir para a consolidação dos pilares do Plano Real. Seu sucessor, Gustavo Franco, além de ser um dos idealizadores do Plano Real, implementou medidas de saneamento do sistema financeiro nacional, como os programas PROER e PROES, fundamentais para enfrentar fragilidades bancárias remanescentes do período inflacionário.
Na sequência, Armínio Fraga (1999–2003) assumiu o comando do BCB em um contexto de forte volatilidade cambial e crise de confiança nos mercados emergentes. Sua gestão foi marcada pela introdução do regime de metas para a inflação, que se tornou um dos principais marcos da política monetária brasileira, e por uma atuação decisiva na estabilização macroeconômica durante um período crítico, com políticas ancoradas em transparência e previsibilidade.
Henrique Meirelles (2003–2011) conduziu o Banco durante um dos mais longos períodos de estabilidade macroeconômica do país, com foco na autonomia operacional da instituição. Sob sua liderança, o BCB ganhou musculatura para atuar de forma independente, contribuindo de forma decisiva para o controle da inflação e a solidez bancária. Durante a crise financeira global de 2008, o Banco Central teve papel central na adoção de medidas que garantiram a resiliência do sistema financeiro brasileiro frente à turbulência internacional.
Ilan Goldfajn (2016–2019) trouxe uma nova agenda institucional com a iniciativa BC+, voltada à inclusão, à competitividade, à transparência e à educação financeira. Sua gestão deu início a importantes projetos de transformação digital no sistema financeiro, como o Open Banking e o desenvolvimento do Pix, iniciativas que visavam aumentar a eficiência e a concorrência no setor.
Roberto Campos Neto (2019–2024) deu continuidade e profundidade a essas transformações. Sob sua liderança, o Banco Central acelerou a digitalização dos serviços financeiros com a consolidação do Pix[2] e a implementação do Open Finance, ampliando a inclusão financeira no país. Outro marco foi a aprovação da lei que conferiu autonomia formal ao Banco Central, blindando a política monetária de influências políticas de curto prazo e fortalecendo a credibilidade institucional.
Essas lideranças, cada uma a seu modo, modernizaram a autoridade monetária brasileira, posicionando o país entre as economias que combinam estabilidade macroeconômica com inovação e competição no mercado financeiro. Em 2024, Gabriel Galípolo assumiu a presidência da instituição com o desafio de, junto ao corpo técnico altamente qualificado do Banco Central, dar continuidade ao processo de modernização, incentivo à concorrência e promoção de inovação financeira.
Durante as comemorações dos 60 anos, foi enfatizado o papel do Banco em adotar referências internacionais como benchmarks. Ainda mais relevante, no entanto, foi o reconhecimento de que, diante da ausência de padrões consolidados, o Brasil tem assumido a dianteira, oferecendo soluções inovadoras e se tornando referência global. Essa postura rompe com a lógica segundo a qual países em desenvolvimento devem apenas seguir diretrizes externas. Ao contrário, o BCB vem se consolidando como um laboratório vivo de políticas públicas e inovações financeiras com impacto internacional.
Nos discursos transmitidos pelo canal oficial da instituição no YouTube[3], destacou-se que o Banco busca constantemente as melhores práticas globais, mas, quando elas não existem, lidera com responsabilidade e visão estratégica. Inovação e regulação, longe de serem antagônicas, são vistas como complementares e essenciais para uma autoridade que busca estabilidade sem abrir mão do futuro. O alinhamento às diretrizes do BIS, do FMI e de outras entidades internacionais permanece como base, mas o protagonismo do BCB em propor soluções inéditas tem chamado atenção de todo o mundo.
Exemplos não faltam. O Pix, sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido e gerido pelo Banco Central, tornou-se uma das maiores histórias de sucesso de inovação financeira mundial, algo comparável apenas ao sistema UPI[4] da Índia. Em poucos anos, o Pix superou o uso de dinheiro e cartões, tornando-se o principal meio de pagamento no país. A revista The Economist[5] destacou seu impacto transformador, especialmente por seu caráter público, gratuito e universal.
Outras iniciativas de vanguarda incluem o LIFT (Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas)[6], o Sandbox Regulatório[7] – que permite testar inovações em ambientes controlados – e o Open Finance[8], que garante aos consumidores o poder sobre seus dados e estimula uma nova dinâmica de competição entre instituições financeiras.
Mais recentemente, o desenvolvimento do Drex[9], a versão digital do real, inseriu o Brasil nas discussões globais sobre moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs). Com um diferencial importante, o BCB não apenas replica modelos internacionais, mas busca soluções adaptadas à realidade e às necessidades brasileiras, com foco em segurança, eficiência e inclusão.
A autonomia formal conquistada com a Lei Complementar nº 179/2021[10] foi um divisor de águas. Os mandatos fixos e não coincidentes com o do Chefe do Executivo conferem estabilidade institucional, afastando pressões de curto prazo e reforçando a previsibilidade das decisões de política monetária[11]. Essa autonomia fortalece a ancoragem das expectativas de inflação e contribui para a redução das taxas de juros estruturais no médio e longo prazo.
Importante frisar que autonomia não significa isolamento. Pelo contrário, ela exige mais transparência, responsabilidade e diálogo com a sociedade. Os instrumentos de governança, como o regime de metas de inflação, os relatórios periódicos (Relatório de Inflação, Atas do Copom) e a prestação de contas ao Congresso Nacional são pilares dessa nova era de independência com accountability.
O conjunto de iniciativas lideradas pelo Banco Central reforça seu compromisso com a modernização da economia brasileira, com a inclusão financeira e com a estabilidade do sistema financeiro. Paralelamente, a autarquia atua de forma decisiva em áreas como educação financeira, sustentabilidade (ESG[12]), inovação regulatória e fomento à livre concorrência – contribuindo, assim, para um desenvolvimento mais equilibrado e sustentável do país.
A postura estratégica adotada pelo BCB ao longo dessas seis décadas reflete não apenas um alinhamento com as melhores práticas internacionais, mas também um protagonismo genuíno na definição de novas rotas para temas ainda em construção no cenário global.
[1] O Banco Central do Brasil é uma autarquia federal autônoma integrante do Sistema Financeiro Nacional sem vinculação a Ministério. Foi criado em 31 de dezembro de 1964 pela Lei nº 4 595 e iniciou suas atividades em março de 1965, tendo em vista que a Lei nº 4 595 entrou em vigor 90 dias após sua publicação.
[2] Pix: Sistema de pagamentos instantâneos lançado em 2020, que rapidamente se tornou o meio de pagamento mais utilizado no Brasil, superando o uso de dinheiro e cartões. Sua eficiência e gratuidade para pessoas físicas chamaram a atenção de autoridades monetárias de todo o mundo.
[6] LIFT (Laboratório de Inovações Financeiras e Tecnológicas): Espaço colaborativo criado para fomentar o desenvolvimento de soluções financeiras tecnológicas em parceria com o setor privado.
[7] Sandbox Regulatório: Ambiente controlado de testes que permite a empresas desenvolverem modelos de negócio inovadores, sob supervisão regulatória, com riscos mitigados.
[8] Open Finance (inicialmente Open Banking): Projeto que amplia o controle do cidadão sobre seus dados bancários, promovendo mais competição, inovação e inclusão financeira.
[9] Drex: A moeda digital do Banco Central (CBDC), ainda em fase de testes, representa a evolução da política monetária e financeira em um contexto de digitalização crescente da economia.
[10] A Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021, define os objetivos do Banco Central do Brasil (BC) e estabelece a sua autonomia. A lei também regula a nomeação e exoneração dos dirigentes do BC.
[12] ESG é a sigla em inglês para “Environmental, Social and Governance”, que significa “Ambiental, Social e Governança” em português. É um conjunto de práticas e critérios que avaliam a sustentabilidade, responsabilidade social e gestão.
Leandro Oliveira Leite. Servidor público federal, analista do Banco Central do Brasil (BCB), atualmente trabalhando no CADE na área de condutas unilaterais, possui graduações em Administração, Segurança Pública e Gestão do Agronegócio e especialização em Contabilidade Pública. Tem experiência na parte de supervisão do sistema financeiro e cooperativismo pelo BCB, bem como, já atuou com assessor técnico na Casa Civil.
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Nos últimos anos, a sustentabilidade tem se tornado um fator essencial na governança corporativa e na tomada de decisões financeiras. Como parte desse movimento global, o Banco Central do Brasil (BCB) e o Conselho Monetário Nacional (CMN) estabeleceram novas diretrizes para que as instituições financeiras aumentem a transparência na divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. Até 2028, todas as instituições que já publicaram projeções financeiras consolidadas obrigatórias de acordo com os padrões internacionais do International Accounting Standards Board (IASB) deverão elaborar e divulgar relatórios de sustentabilidade alinhados às normas internacionais. Essa exigência inclui companhias de capital aberto e conglomerados prudenciais enquadrados nos segmentos S1, S2 ou S3[1].
A regulamentação foi formalizada pelas resoluções CMN 5.185[2] e BCB 435[3], publicadas em novembro de 2024. Essas medidas visam garantir que investidores e demais stakeholders tenham acesso a informações comparáveis e confiáveis sobre riscos e oportunidades relacionadas à sustentabilidade. Com isso, espera-se que a alocação de recursos financeiros leve em consideração os impactos ambientais e sociais, promovendo um desenvolvimento econômico mais sustentável e equilibrado. Além disso, a iniciativa está alinhada aos padrões internacionais e segue uma tendência global já adotada por outras jurisdições e órgãos reguladores, como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que implementou regras semelhantes em 2023.
Os relatórios de sustentabilidade deverão seguir as normas estabelecidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), em especial os pronunciamentos IFRS S1 e IFRS S2. O IFRS S1 estabelece requisitos gerais para a divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, incluindo impactos potenciais nos fluxos de caixa das entidades. Já o IFRS S2 foca especificamente em riscos e oportunidades associadas às mudanças climáticas. Ambos os padrões foram aprovados pelo Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS) em setembro de 2024, reforçando a necessidade de padronização na apresentação dessas informações.
A obrigatoriedade dos relatórios ocorrerá de forma gradual, garantindo que as instituições tenham tempo para se adaptarem às novas exigências. Para as instituições dos segmentos S1 e S2, ou reservas como companhias abertas, a obrigatoriedade entrará em vigor a partir do exercício social de 2026. Já para as demais instituições que prevêem projeções financeiras consolidadas anuais de acordo com os padrões internacionais, a exigência se tornará efetiva em 2028. No entanto, o BCB permite que as instituições iniciem uma divulgação específica, incentivando a adaptação voluntária ao novo modelo. Além disso, para garantir a confiabilidade das informações, os relatórios obrigatórios deverão passar por garantia razoável de um auditor independente.
Essa faz parte da agenda de sustentabilidade do Banco Central do Brasil, que inclui diversas ações voltadas à transparência financeira e à gestão de riscos ambientais, sociais e climáticos. Uma das iniciativas complementares foi a consulta pública sobre a inclusão de requisitos recomendados pela Força-Tarefa para Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD) no Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticos (Relatório GRSAC). Essa abordagem reforça o compromisso do BCB em alinhar as práticas do setor financeiro brasileiro às melhores normas internacionais, promovendo um ambiente regulatório robusto e transparente.
A exigência de relatórios de sustentabilidade representa um avanço significativo na integração de fatores ESG (ambientais, sociais e de governança) no sistema financeiro. Ao exigir que as instituições divulguem informações detalhadas sobre riscos climáticos e sustentabilidade, o BCB contribui para um mercado financeiro mais sólido, confiável e adequado às necessidades de uma economia global em transformação. Essa medida também tem potencial para influenciar positivamente o comportamento das instituições, incentivando práticas empresariais responsáveis e promovendo a adoção de estratégias voltadas para a mitigação dos impactos ambientais e sociais.
Além dos benefícios diretos para investidores e reguladores, essa iniciativa fortalece a posição do Brasil no cenário global, alinhando o país às tendências internacionais de sustentabilidade financeira. A crescente demanda por investimentos sustentáveis e a necessidade de transparência nas práticas corporativas reforçam a importância de regulamentações que garantem a confiabilidade das informações divulgadas. Dessa forma, a atuação do Banco Central do Brasil na regulação de relatórios financeiros sobre sustentabilidade demonstra um compromisso claro com a estabilidade financeira, a governança responsável e o desenvolvimento sustentável do país.
[1] Os segmentos financeiros S1, S2 e S3 são categorias de instituições financeiras, de acordo com o seu porte. A segmentação foi adotada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Segmento S1
É composto por grandes instituições financeiras, como bancos múltiplos, bancos comerciais, bancos de investimento, bancos de câmbio e caixas econômicas
Para estar neste segmento, a instituição deve ter porte igual ou superior a 10% do PIB
Ou deve exercer atividade internacional relevante
Segmento S2
É composto por bancos de médio porte, como bancos múltiplos, bancos comerciais, bancos de investimento, bancos de câmbio e caixas econômicas
Para estar neste segmento, a instituição deve ter porte igual ou superior a 1% do PIB
Segmento S3
É composto por instituições de menor porte, como pequenas fintechs e cooperativas menores
Para estar neste segmento, a instituição deve ter porte igual ou superior a 0,1% do PIB
O segmento S4 é composto por instituições de porte inferior a 0,1% do PIB.
Leandro Oliveira Leite. Servidor público federal, analista do Banco Central do Brasil (BCB), atualmente trabalhando no CADE na área de condutas unilaterais, possui graduações em Administração, Segurança Pública e Gestão do Agronegócio e especialização em Contabilidade Pública. Tem experiência na parte de supervisão do sistema financeiro e cooperativismo pelo BCB, bem como, já atuou com assessor técnico na Casa Civil.
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O Projeto Aperta, liderado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS)[1], é uma das mais recentes e promissoras iniciativas globais no campo do open finance[2]. Com a participação de países como Brasil, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos e Hong Kong, o projeto busca integrar infraestruturas financeiras domésticas de diferentes jurisdições para promover o compartilhamento seguro e contínuo de dados financeiros em escala internacional.
O principal objetivo do Projeto Aperta (“aberto” em latim) é criar um ambiente que conecte diferentes ecossistemas de finanças abertas por meio de uma rede multilateral de interoperabilidade transfronteiriça. A promessa é reduzir custos e aumentar a eficiência no trade finance[3], especialmente para pequenas e médias empresas (PMEs), que frequentemente enfrentam problemas burocráticos e financeiros no comércio internacional. Com a digitalização desse setor, o projeto tem o potencial de desenvolver o crescimento econômico sustentável e fortalecer a resiliência do sistema financeiro global.
Além disso, o Projeto Aperta busca harmonizar padrões, protocolos de segurança e estruturas de confiança entre jurisdições que adotam o financiamento aberto. Atualmente, cerca de 70 países possuem regulamentações sobre finanças abertas, mas as diferenças entre essas normas muitas vezes dificultam o fluxo contínuo de dados. A fragmentação regulatória e tecnológica é uma barreira significativa para a integração global, e o Projeto Aperta se propõe a superar esses desafios, criando um sistema padronizado que facilite a comunicação entre diferentes infraestruturas financeiras.
O Banco Central do Brasil (BCB) vem desempenhando um papel estratégico no Projeto Aperta, consolidando-se como um dos líderes globais em inovação financeira. A participação do BCB nesta iniciativa reflete o compromisso do Brasil em avançar no uso de tecnologias emergentes e fomentar a conectividade entre sistemas financeiros. Como destacou Otávio Ribeiro Damaso, Diretor de Regulação do BC à época, “o Projeto Aperta é um movimento para colocar o Sistema Financeiro Nacional (SFN) na vanguarda das inovações tecnológicas mundiais“.
A experiência do Brasil com o Open Finance já é robusta, com mais de 54 milhões de assinaturas ativas e 35 milhões de clientes participantes. O envolvimento do país no Projeto Aperta expande ainda mais esse ecossistema, permitindo que os consumidores brasileiros se beneficiem de soluções financeiras globais, como maior agilidade na abertura de contas internacionais e acesso facilitado a serviços de trade finance.
A infraestrutura do Projeto Aperta baseia-se em APIs (interfaces de programação de aplicativos) para permitir o compartilhamento seguro de dados entre diferentes jurisdições. A segurança é garantida por meio de criptografia ponta a ponta e mecanismos de consentimento explícito do consumidor. O modelo de governança multilateral permite que instituições financeiras, fintechs e demais players do mercado colaborem em um ambiente seguro e confiável.
Os casos de uso iniciais incluem: a) Compartilhamento de dados de contas: facilita a abertura de contas internacionais de forma mais ágil e com menor burocracia; b) Trade finance: permite o compartilhamento de informações, como cartas de crédito e conhecimentos de embarques eletrônicos, reduzindo custos e acelerando processos em negociações internacionais.
A interoperabilidade entre diferentes jurisdições é um dos diferenciais do projeto. Por exemplo, um banco brasileiro poderá acessar dados de um cliente em Hong Kong ou nos Emirados Árabes Unidos de maneira segura e eficiente, fornecendo soluções financeiras mais personalizadas e competitivas.
O Projeto Aperta é resultado de uma colaboração entre o BIS Innovation Hub (Hong Kong), o Banco Central do Brasil, o Banco Central dos Emirados Árabes Unidos, a Autoridade de Conduta Financeira do Reino Unido, a Autoridade Monetária de Hong Kong, entre outros. A iniciativa também conta com o suporte da International Chamber of Commerce Digital Standards Initiative, que reforça os esforços para criar padrões globais de interoperabilidade no comércio internacional.
O papel das parcerias estratégicas é essencial para garantir a harmonização de regras e a padronização de tecnologias. Por meio dessas colaborações, o Projeto Aperta busca criar um ecossistema financeiro global integrado, no qual consumidores, empresas e instituições financeiras possam operar de maneira mais eficiente.
O uso de dados transfronteiriços não traz apenas oportunidades, mas também desafios éticos e de segurança. A gestão responsável dos dados é uma prioridade do projeto, que adota medidas rigorosas de governança para proteger informações sensíveis. Além disso, a transparência nos processos e o respeito ao consentimento do consumidor são elementos fundamentais para garantir a confiança no sistema.
Os avanços tecnológicos, como inteligência artificial (IA) e blockchain[4], também desempenham um papel crucial no Projeto Aperta. Essas tecnologias podem melhorar a análise de risco, a detecção de fraudes e a eficiência operacional, trazendo benefícios diretos para consumidores e empresas.
O Projeto Aperta tem implicações significativas para o mercado financeiro global e a concorrência digital. Ao reduzir barreiras burocráticas e promover a interoperabilidade, ele nivela o campo de atuação para players de diferentes portes, desde grandes bancos até fintechs emergentes. Isso incentiva a inovação e oferece aos consumidores acesso a uma gama mais ampla de produtos e serviços financeiros.
Além disso, a digitalização do trade finance pode fortalecer a posição de pequenas e médias empresas no comércio internacional, tornando-as mais competitivas e resilientes. O impacto no Brasil será particularmente positivo, considerando o potencial do país como um dos maiores exportadores globais.
O Projeto Aperta representa um marco na integração global de finanças abertas, com o potencial de transformar o comércio internacional e o sistema financeiro como um todo. A participação do Banco Central do Brasil reforça o compromisso do país em liderar a inovação tecnológica no setor financeiro, promovendo maior inclusão, eficiência e competitividade. Ao criar uma infraestrutura global de interoperabilidade, o Projeto Aperta não apenas fortalece os laços entre diferentes jurisdições, mas também estabelece um modelo de governança e colaboração que pode servir de referência para futuras iniciativas globais. Esse projeto simboliza o futuro das finanças: conectado, competitivo, inclusivo e sustentável.
[2]Open Finance é uma iniciativa do Banco Central do Brasil, sendo um sistema que permite o compartilhamento de dados financeiros entre instituições financeiras e de pagamento. O objetivo é melhorar a oferta de produtos e serviços financeiros, além de promover a concorrência e a inovação.
[3]Trade Finance, ou financiamento do comércio, é um conjunto de ferramentas e serviços financeiros que facilitam o comércio internacional e doméstico, sendo importante para garantir que os importadores recebam os produtos e que os exportadores recebam o pagamento. Ele também ajuda a minimizar riscos como instabilidade política ou cambial e inadimplência.
[4]Blockchain é um sistema de registro digital descentralizado que armazena transações em blocos interligados. Ele é conhecido por ser a base do Bitcoin, mas pode ser usado em outras áreas, como saúde, logística e governança.
Ver outro artigo do autor que trata de Open Finance:
O Open Finance1 representa um dos pilares mais inovadores da transformação digital no sistema financeiro brasileiro, alavancando a conectividade e a transparência em relação aos dados financeiros dos consumidores. Esse ecossistema, que atualmente conta com 54 milhões de consentimentos ativos envolvendo 35 milhões de clientes, tem redefinido a maneira como dados financeiros são compartilhados, analisados e utilizados para oferecer soluções personalizadas, seguras e eficientes. Contudo, sua relevância vai além da simples troca de informações: ele se conecta com um contexto mais amplo, de Open Data2 e políticas de governança de dados, conforme apontado no 30º Seminário do IBRAC sobre “Open data: o papel de políticas públicas de dados abertos e de Data Trusts para a defesa da concorrência em mercados digitais”.
O Open Finance é baseado na premissa de que as informações financeiras pertencem ao cliente, cabendo a ele decidir quando, como e com quem compartilhar esses dados. Essa liberdade gera um ambiente em que diversas instituições podem, mediante o consentimento dos usuários, acessar dados que anteriormente permaneciam isolados. Essa integração tem impulsionado uma série de inovações e produtos financeiros, tais como: (i) iniciação de transações de pagamento, permitindo maior agilidade e competitividade no mercado de pagamentos; (ii) operações de crédito com avaliação de risco aprimorada, proporcionando limites de crédito mais ajustados e taxas de juros competitivas; (ii) ferramentas de gerenciamento financeiro avançado, como agregadores de contas, que permitem ao cliente ter uma visão integrada de seus gastos, dívidas e investimentos; (iii) recomendações personalizadas de investimentos, possibilitando ao usuário melhor rentabilidade e menor risco; e (iv) simplificação na abertura de contas, com processos mais ágeis que reduzem a burocracia e aumentam a acessibilidade.
As iniciativas de Open Data, como discutidas no 30º Seminário do IBRAC, possuem papel fundamental na promoção de mercados digitais mais concorrenciais e abertos. O conceito de Open Data envolve o compartilhamento amplo e seguro de informações, o que se alinha diretamente com os objetivos do Open Finance de aumentar a competitividade e a inovação no setor financeiro. Ao possibilitar que diferentes players, desde grandes instituições até fintechs, tenham acesso a informações de maneira igualitária, cria-se um ecossistema no qual a concorrência saudável pode prosperar, estimulando novos serviços e condições mais vantajosas para os consumidores.
Uma questão importante levantada durante o seminário foi o papel dos data trusts3, sendo responsáveis por gerenciar e regular o uso de dados compartilhados. No contexto do Open Finance, esses Data Trusts poderiam garantir maior segurança, transparência e ética no uso dos dados, promovendo uma governança robusta e eficiente que assegure que os interesses dos consumidores estejam protegidos. Tal modelo fortaleceria a confiança no sistema e impulsionaria ainda mais o engajamento de clientes no compartilhamento de suas informações, favorecendo o crescimento do mercado financeiro.
A crescente integração de Open Finance, Open Data e Data Trusts tem implicações profundas para a sociedade e para o mercado financeiro. Empresas que adotarem práticas alinhadas a essa transformação digital terão acesso a um cenário competitivo robusto, com melhores condições para inovar e atender às necessidades dos consumidores. Além disso, a capacidade de personalização dos serviços financeiros deve aumentar, resultando em mais inclusão financeira e soluções ajustadas aos diferentes perfis de consumidores.
Contudo, há desafios regulatórios e operacionais que precisam ser superados, como a harmonização das regras internacionais para o uso de dados, a governança dos sistemas de pagamento e a mitigação dos riscos associados ao compartilhamento de informações sensíveis. O papel do Banco Central do Brasil e de outras instituições, como o Cade, será fundamental para estabelecer um ambiente regulatório que equilibre inovação, segurança e proteção dos direitos dos usuários.
A experiência brasileira com Open Finance tem atraído a atenção global, posicionando o Brasil como referência em termos de inovação financeira. Em termos de benchmarking internacional, iniciativas similares em países como o Reino Unido e Austrália demonstram como a integração de Open Data pode transformar não apenas o setor financeiro, mas também serviços de utilidade pública e outros mercados digitais. A convergência com novas tecnologias, como a inteligência artificial (IA) e a tokenização, amplia ainda mais o potencial do Open Finance para proporcionar serviços ágeis, inclusivos e voltados para o futuro.
O Banco Central do Brasil tem liderado com inovações como o Pix e a implementação do Drex, a moeda digital brasileira. A integração dessas soluções com o Open Finance reforça a posição do Brasil como líder em transformação digital no setor financeiro. Com o apoio de tecnologias emergentes e uma base regulatória robusta, o país está preparado para enfrentar os desafios da economia digital e moldar um futuro financeiro mais inclusivo e sustentável.
Com base nesse cenário, o Open Finance, apoiado por iniciativas de Open Data e Data Trusts, é mais do que uma simples modernização do sistema financeiro; ele representa uma mudança de paradigma na forma como dados são gerenciados, compartilhados e utilizados para beneficiar a sociedade. Ao promover maior concorrência, transparência e inovação, essas iniciativas têm o potencial de transformar profundamente o mercado financeiro brasileiro, com benefícios diretos para consumidores e empresas.
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