Azul e Gol negam fusão em audiência na Câmara, mas Cade suspeita de cartel no setor aéreo

Durante a pandemia, a Azul chegou a operar rotas em conjunto com a Latam e, mais tarde, com a Gol. Um estudo mostrou que a operação conjunta com a Gol levou à redução de rotas e a um aumento médio de 23% nos preços das passagens

Em audiência pública realizada nesta terça-feira (23) na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados, representantes das companhias Gol e Azul negaram que esteja em andamento um processo de fusão entre as duas empresas. A reunião também trouxe à tona as suspeitas de acordo de preços de passagens aéreas entre as três maiores companhias que atuam no Brasil: Gol, Azul e Latam.

Empresas negam fusão, mas admitem conversas no passado

O gerente de Relações Institucionais da Azul, Camilo Coelho, afirmou que a possibilidade de fusão foi cogitada apenas no contexto da pandemia da Covid-19:

“A fusão não é um fato, a gente não chegou a submeter formalmente nada ao Cade. Fizemos um formulário de consulta, um pré-formulário, em outro ambiente, outro cenário, em um outro momento das empresas que já passou, já não está mais aí. O foco da Azul agora é terminar sua recuperação judicial.”

Na mesma linha, o assessor da presidência da Gol, Alberto Fajerman, reconheceu que houve conversas entre as companhias em razão das dificuldades financeiras do setor, mas garantiu que a ideia foi abandonada. A Gol concluiu sua recuperação judicial em junho desse ano, enquanto a Azul entrou em recuperação a partir de julho.

Cade investiga suspeita de cartel

A audiência também discutiu indícios de formação de cartel no setor aéreo, que concentra cerca de 99% dos voos regulares no país nas mãos de três empresas: Gol, Azul e Latam.

O presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Gustavo Augusto Freitas de Lima, confirmou que há uma investigação em andamento:

“As projeções indicam que nós estamos tendo o aumento de passageiros, as projeções do setor são muito positivas, ou seja, seria uma época em que as empresas estariam investindo e ampliando. E nós estamos vendo o movimento contrário, ou seja, uma diminuição do número de voos. Isso chama a atenção. Os dados ainda não são 100% conclusivos, mas os dados que temos até agora indicam problemas de rivalidade.”

Durante a pandemia, a Azul chegou a operar rotas em conjunto com a Latam e, mais tarde, com a Gol. Segundo Camilo Coelho, isso não teria reduzido a concorrência, já que se tratava de trechos não disputados pelas companhias.

No entanto, um estudo apresentado pela presidente do Instituto Brasileiro de Concorrência e Inovação (IBCI), Juliana Oliveira Domingues, mostrou que a operação conjunta com a Gol levou à redução de rotas e a um aumento médio de 23% nos preços das passagens.

Insatisfação crescente dos consumidores

As críticas ao setor aéreo não se restringem ao preço das passagens. Para o deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), é preciso enfrentar o problema estrutural: “É um conjunto de fatores que leva a um ambiente de profunda instabilidade.”

Dados da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) reforçaram a percepção negativa. De acordo com o diretor do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, Vitor Hugo do Amaral Ferreira, entre 2023 e agosto de 2025, foram registradas mais de 240 mil reclamações fundamentadas contra empresas aéreas na plataforma consumidor.gov.br.

Como isso pode afetar o consumidor

A audiência revelou um cenário de tensão no setor aéreo:

  • Negação de fusão formal entre Azul e Gol, mas histórico de conversas passadas;
  • Investigação do Cade sobre suspeita de cartel e aumento artificial de preços;
  • Estudo apontando alta média de 23% nos bilhetes em rotas compartilhadas;
  • Insatisfação generalizada refletida em milhares de reclamações de passageiros.

Enquanto empresas aéreas tentam consolidar sua recuperação financeira após a pandemia, consumidores seguem pressionados pelo alto custo das passagens e pela queda na qualidade do serviço.

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