Brasília, 04/04/2025
As novas tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos, anunciadas pelo presidente Donald Trump no que classificou como “Dia da Libertação”, já acendem alertas para o setor produtivo brasileiro. Embora o Brasil tenha sido incluído na lista com uma tarifa de 10% – menor que a aplicada a países como China, Japão e membros da União Europeia – os impactos na indústria nacional de máquinas e equipamentos são motivo de preocupação, conforme alerta a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).
Segundo o presidente-executivo da entidade, José Velloso, os efeitos serão duplos e imediatos: perda de competitividade nas exportações e aumento da concorrência estrangeira no mercado interno. Isso ocorre devido ao desvio de comércio global, movimento em que países afetados por tarifas mais altas redirecionam seus produtos para outros mercados – como o Brasil.
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ToggleEUA e a exportação brasileira de máquinas
Com essa medida, os produtos brasileiros ficam 10% menos competitivos, o que deve prejudicar diretamente a presença brasileira nos Estados Unidos. Atualmente, os EUA representam 7% do faturamento do setor maquinário brasileiro, sendo o maior comprador das exportações brasileiras de máquinas e equipamentos. Com a nova tarifa, os produtos nacionais chegam ao mercado americano 10% mais caros, perdendo competitividade frente a fabricantes locais – segundo análise de Velloso junto à CNN.
O mais preocupante, segundo o presidente-executivo da Abimaq, é o reflexo das tarifas no mercado doméstico. Velloso aponta que, com as barreiras comerciais impostas pelos EUA, países como China, Japão, Coreia do Sul e europeus devem buscar novos destinos para seus produtos, pressionando ainda mais os fabricantes nacionais a se estabelecer na competição interna.
Em 2023, mesmo com uma leve retração de 0,2% no consumo de máquinas no Brasil, as importações vindas da China cresceram 34%, lembra Velloso. O resultado fez com que a participação dos fabricantes brasileiros caísse de 60% para 54% no mercado interno.
Além disso, o executivo destaca que o aumento no preço de insumos, como o aço, agravou ainda mais o cenário, reduzindo significativamente a margem de competitividade da indústria nacional.
Diplomacia e política industrial
Velloso alega agilidade do governo brasileiro em tentar abrir negociações com os Estados Unidos, mas defende uma resposta “mais estratégica e estrutural”. Ele sugere que o Brasil adote a “escalada tarifária”, modelo que aplica tarifas progressivas de acordo com o nível de processamento dos produtos, com o objetivo de incentivar a agregação de valor ao país.
“Nós temos que ganhar valor no Brasil, gerar valor no Brasil e industrializar as nossas matérias-primas”, afirma o presidente da Abimaq.
Essa abordagem poderia fortalecer a indústria nacional e reduzir a vulnerabilidade diante de choques internacionais, especialmente em um momento em que a Europa também avança com regulamentações que buscam proteger seu mercado e os direitos dos consumidores.
“Tarifaço” de Trump gerou críticas internas e ameaça sua popularidade
Já internamente, o pacote de tarifas pode custar alguns pontos de popularidade ao presidente Trump. Com a inflação pressionada, cadeias de suprimentos desorganizadas e um mercado ainda em recuperação, 70% dos americanos (incluindo 62% dos republicanos) acreditam que as tarifas aumentarão os preços de alimentos e bens de consumo, segundo pesquisa da Reuters/Ipsos.
Embora o objetivo tenha sido impulsionar a produção americana, especialistas apontam que os efeitos colaterais políticos no curto prazo podem ser desastrosos. Segundo analistas políticos do g1, levará anos para revitalizar a manufatura nos EUA, alterar cadeias de abastecimento e trazer a produção de volta ao país.
“Ele tem uma alta tolerância à dor, mas isso pode se transformar em uma dor real nas urnas em novembro de 2026”, afirma Mike Dubke, ex-diretor de comunicação da Casa Branca. Os riscos político de estratégias muito extremas à beira da eleição legislativa podem custar a cadeira de Donald Trump na presidência; até porque nas próximas eleições americanas, será definida a tomada de controle do Congresso dos Estados Unidos, com os democratas ou republicanos brigando por maioria partidária.
Impactos econômicos já são sentidos
O mercado estrangeiro recebeu o anúncio do governo Trump de forma negativa diante da ameaça de encarecimento dos produtos finais que entram nos EUA; assim como a alta nos preços de uma série de insumos necessários para produção de bens e realização de serviços do país. Especialistas avaliam que esse encarecimento deve pressionar ainda mais a inflação e diminuir também o consumo, o que pode provocar uma desaceleração gradual ou até mesmo ocasionar uma recessão da atividade econômica da maior economia do mundo.
“Do ponto de vista do risco político, essa é uma ideia muito ruim”, avaliou Philip Luck, diretor do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
Além disso, as respostas de outros países, como a China, com ameaças de taxação sobre os EUA, também sugerem maior alerta sobre os efeitos da eclosão de uma guerra tarifária-comercial. Existe o risco dos países que responderem Trump com embargos adicionais acabarem tendo alta de sua inflação interna, somada à uma consequente desaceleração de atividades. Há temores entre os especialistas de que a guerra de tarifas diminua em níveis irremediáveis a demanda global por bens e serviços no geral.
Efeitos diretos
Após o anúncio do tarifaço, Ibovespa, principal índice acionário da bolsa de valores, a B3, passou a operar em forte queda, caindo cerca de 3%. Já o dólar começou o dia em alta, sendo vendido a R$ 5,78 por volta das 10h45 do dia de hoje (04/04). O futuro do mercado de ações nos EUA também amanheceu caminhando em uma corda-bamba:
Por volta das 10h45, este era o desempenho das principais bolsas americanas:
- Dow Jones caía 2,76%
- S&P 500 caía 3,10%
- Nasdaq caía 3,20%
Veja também o desempenho das principais bolsas da União Europeia, por volta das 10h45:
- 🇩🇪 o DAX, da Alemanha, caía 4,23%
- 🇫🇷 o CAC 40, da França, caía 3,95%
- 🇮🇹 o Itália 40, da Itália, caía 6,29%
- 🇪🇸 o IBEX 35, da Espanha, caía 5,40%
- 🇳🇱 o AEX, da Holanda, caía 3,27%
Na Ásia, os mercados também fecharam em baixa:
- 🇭🇰 Hang Seng, de Hong Kong, caiu 1,52%
- 🇯🇵 Nikkei 225, do Japão, caiu 2,80%
- 🇬🇸 Kospi, da Coreia do Sul, caiu 0,86%
- 🇹🇭 SET, da Tailândia, caiu 3,15%
- 🇮🇳 Nifty 50, da Índia, caiu 1,49%
No setor produtivo americano, as reações são mistas. Enquanto alguns fabricantes comemoram o aumento da demanda por produtos nacionais, como foi observado em Baltimore, a classe consumidora começa a sentir os impactos nos custos de importação, como Michelle Lim Warner, de Washington. A proprietária de uma loja de vinhos afirmou estar mais pessimista já que dois terços dos produtos que vende são europeus:
“Quem vai pagar US$ 75 por uma garrafa de vinho que antes custava US$ 25?”, questionou a empresária.
O que esperar daqui para frente?
Enquanto o governo brasileiro tentar articular medidas diplomáticas, especialistas em comércio internacional sugerem maior cautela diante do cenário atual. Em termos de mercado nacional, a análise da Abimaq reforça que a única saída para a indústria nacional é buscar valor agregado, inovação e defesa da competitividade frente ao novo ambiente internacional. O risco de retaliações por parte de países afetados pelas tarifas é real, o que pode agravar ainda mais a volatilidade do mercado em cenário global.
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