A França, conhecida mundialmente por marcas de água mineral natural de destaque, como Perrier, Evian e Vichy, enfrenta uma crise sem precedentes no setor. Um escândalo envolvendo práticas ilegais de microfiltragem passou a ameaçar a reputação da Perrier no mercado francês – e colocar em xeque a própria definição de “água mineral natural” em toda a União Europeia.
A origem do escândalo: o “Water-gate” francês
As revelações começaram a aparecer há um ano, quando uma investigação do jornal Le Monde e da Rádio França mostrou que um terço da água mineral vendida no país era tratada ilegalmente com luz ultravioleta, filtros de carvão e microtelas ultrafinas. De acordo com a BBC, o problema se estabelece porque “segundo a legislação da União Europeia, a ‘água mineral natural’ (que é vendida a preços muito mais altos que a água da torneira) supostamente deve ser inalterada entre a fonte subterrânea e a garrafa”.
Dessa forma, embora não houvesse risco sanitário, a prática violava a legislação europeia, que exige que a água mineral natural seja engarrafada sem alteração da fonte ao consumidor. A partir das constatações, a jornalista Stéphane Mandard, responsável pela apuração, classificou o caso como um verdadeiro “Water-gate”:
“É uma combinação de fraude industrial e conluio com o Estado. E, agora, existe uma verdadeira espada de Dâmocles sobre a cabeça da Perrier”, em referência à lenda grega que faz alusão à insegurança e questionamento daqueles que estão em posição de poder na sociedade.
Mudanças climáticas e pressão sobre aquíferos
Segundo especialistas, a crise expõe a vulnerabilidade do modelo de negócios do setor. A hidróloga Emma Haziza explica que a sequência de secas severas desde 2017, especialmente no sul da França, comprometeu até mesmo os aquíferos profundos – antes, considerados intocáveis:
“Todos os aquíferos foram afetados”, segundo a hidróloga. “Isso significa não só o lençol freático superior, de onde vem a água da torneira do dia a dia. Podemos agora observar que os aquíferos mais profundos, que as empresas pensavam que estariam seguros, também foram atingidos. O imprevisto está acontecendo”, alerta a especialista.
O impacto climático é agravado pela geografia da Perrier. Diferente de outras marcas associadas a montanhas e lagos alpinos, a empresa bombeia água de uma região quente e agrícola próxima ao Mediterrâneo, mais suscetível à contaminação e ao esgotamento hídrico.
“Estamos saindo de um período em que as empresas conseguiam retirar água dos aquíferos profundos com a certeza de que eles seriam reabastecidos para um tempo em que, obviamente, o sistema como um todo não pode continuar”, explica Haziza.
Acusações de conluio entre governo e indústria
As investigações também apontam que o governo francês teria atuado para proteger o setor. Um inquérito no Senado concluiu que houve uma “estratégia deliberada de dissimulação”, com supressão de relatórios sobre contaminação e alterações regulatórias em favor da Nestlé, dona da Perrier.
O ex-chefe de gabinete da então primeira-ministra Élisabeth Borne, Aurélien Rousseau, admitiu um “erro de apreciação”, mas negou riscos à saúde pública. Já o CEO da Nestlé, Laurent Freixe, reconheceu o uso de métodos ilícitos de tratamento de água na fábrica histórica de Gard e confirmou que especialistas recomendaram não renovar o status de água mineral natural para parte da produção.
A defesa da Perrier
A empresa, contudo, sustenta que sua água permanece pura. O hidrólogo da Perrier, Jérémie Pralong, afirmou em defesa da organização bilionária:
“Estamos bombeando água de 130 metros de profundidade, abaixo das camadas de calcário. Temos 100% de certeza sobre a pureza da água e sua composição mineral é constante.”
Ainda assim, após as acusações, a companhia precisou destruir três milhões de garrafas contaminadas no último ano e suspendeu a microfiltragem ultrafina (0,2 mícron), substituída por um sistema de 0,45 mícron aprovado pelo governo francês.
Impactos econômicos e de imagem
Mais do que uma questão técnica, o escândalo ameaça a narrativa comercial que sustenta o setor: a promessa de pureza natural. Caso a Perrier perca o status de “água mineral natural” em alguns de seus poços, será a primeira vez em 160 anos que a marca deixará de se apoiar nesse título por todo o continente europeu.
Para reduzir riscos, a Nestlé apostou na diversificação. O lançamento da linha Maison Perrier, com bebidas aromatizadas e energéticas, permitiu à empresa explorar novos mercados sem depender da classificação mineral – já que essas versões podem ser filtradas livremente.
Um desafio geral para o setor
A decisão da União Europeia sobre a legalidade da microfiltragem deve ser divulgada ainda este ano. Para especialistas, o caso da Perrier pode ser apenas o primeiro de muitos. “Podemos prever que o que aconteceu primeiramente com a fábrica da Perrier irá ocorrer com outros produtores nos próximos anos”, alerta a hidróloga Emma Haziza.
Enquanto isso, cresce a pressão sobre governos e empresas no mundo todo para repensar o consumo de água mineral engarrafada diante da escassez hídrica e dos impactos ambientais globais.
O escândalo da Perrier marca um divisor de águas para o setor mineral na França: mais do que uma crise de imagem, trata-se de um reflexo das mudanças climáticas e da necessidade de maior fidelidade à transparência regulatória. O desfecho do caso pode redefinir o futuro da Perrier e, junto dele, os rumos de toda a indústria mundial de água.
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