Brasília, 18 de julho de 2025
O sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, está no centro de uma investigação aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), a pedido do governo Trump. A apuração, baseada na Lei de Comércio dos EUA, sugere que o Brasil adota práticas desleais ao favorecer serviços digitais desenvolvidos pelo Estado — categoria na qual o Pix se encaixa, embora não tenha sido citado nominalmente nos documentos oficiais.
Essa medida vem na esteira de uma série de ações protecionistas anunciadas pela gestão Trump, incluindo um novo tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros. A suspeita norte-americana é de que o Pix esteja prejudicando a competitividade de empresas americanas como Visa, Mastercard, Apple Pay e Google Pay, ao oferecer um serviço gratuito e eficiente para a população brasileira.
Especialistas apontam inconsistência nas acusações
Para analistas e representantes do setor financeiro, a acusação carece de fundamento. Ralf Germer, CEO da PagBrasil, destaca que o Pix opera apenas com reais e foi criado para atender às necessidades internas, sem concorrência direta com empresas estrangeiras.
“O sistema brasileiro é local, funciona apenas com pagamentos em reais, e foi desenvolvido para atender às necessidades da população brasileira, […] criando concorrência positiva no mercado. […] Eu não vejo que o Pix foi criado para competir diretamente com os Estados Unidos”, afirmou Germer.
Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora, segue a mesma linha. “A hipótese de que o Pix represente uma ameaça direta a plataformas americanas, como PayPal, Facebook Pay ou WhatsApp Pay, não se sustenta”, defende.
Big techs, sigilo de dados e interesses comerciais

Além da concorrência nos meios de pagamento, o governo Trump levanta preocupações sobre a legislação brasileira de proteção de dados, a LGPD. Alega-se que a norma dificultaria o acesso das big techs americanas aos dados dos usuários, o que impactaria modelos de negócio baseados em publicidade. Contudo, o especialista em Direito Digital Marcelo Crespo vê nas críticas uma motivação política:
“Trata-se de um instrumento legítimo de proteção de direitos fundamentais e de soberania digital, alinhado às melhores práticas internacionais. Claramente o principal motivo da investigação não é de fato o Pix ou a LGPD, que está longe de representar um empecilho para que empresas norte-americanas façam negócios aqui no Brasil.”
A suspeita de que o Pix possa estar sendo usado como instrumento geopolítico, especialmente no contexto das articulações do Brics, também pesa. A internacionalização do Pix é vista como potencial ameaça à hegemonia do dólar e ao sistema SWIFT, tradicionalmente controlado por potências ocidentais.
Pix ganha popularidade e incomoda grandes players
Com mais de R$ 26 trilhões movimentados apenas em 2024 e 63,5 bilhões de transações no ano, o Pix se consolidou como um fenômeno de inclusão financeira no Brasil. O sistema é amplamente utilizado por pequenos comerciantes, autônomos e cidadãos em regiões remotas, o que impulsionou sua adoção massiva.
A cada nova funcionalidade — como o Pix Automático, o Pix por aproximação e, futuramente, o Pix Parcelado — o sistema se torna mais completo e competitivo. Essa evolução pressiona as tradicionais operadoras de cartões de crédito, que podem ver sua base de clientes migrar para soluções de menor custo.
Tendência global e reação norte-americana
O Brasil não está sozinho nessa transformação. Países como Índia, China, Argentina e Uruguai também adotaram soluções semelhantes, criadas por governos ou consórcios privados. Nos EUA, os sistemas Zelle e FedNow cumprem funções parecidas, mas ainda não alcançaram a mesma penetração do Pix. A adesão ao FedNow, por exemplo, é opcional, e grandes bancos ainda não integram a plataforma.
Diante disso, especialistas veem a investigação como uma reação à liderança do Brasil em um setor estratégico e em rápida transformação.
“A economia precisa ser dinamizada com sistemas de pagamento eficientes — tanto em tecnologia quanto em custo. […] Essa tendência vai continuar, independentemente de como essa iniciativa dos EUA evoluirá”, concluiu o CEO da PagBrasil.
Fontes: G1 e Gazeta do Povo
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