O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) publicou no Diário Oficial da União (DOU) o aval para a aquisição de um ponto comercial do Grupo Carrefour Brasil pelo Supermercado Mombach Ltda., localizado em Montenegro (RS). A negociação foi aprovada sem restrições, conforme despacho publicado pela Superintendência-Geral no Ato de Concentração nº 08700.005999/2025-64.
Impacto concorrencial: análise do Cade
O Cade avaliou que a operação não configura riscos significativos ao ambiente competitivo. Embora a participação conjunta das empresas no mercado de varejo alimentar autosserviço na região esteja entre 20% e 50%, o aumento no índice de concentração (delta HHI) foi inferior a 200 pontos – parâmetro usado para aferir o risco de exercício de poder de mercado.
“Conclui-se que a operação não possui o condão de acarretar prejuízos ao ambiente concorrencial”, afirma o despacho da Superintendência-Geral.
Com isso, a aquisição foi aprovada sem necessidade de restrições ou condicionantes, alinhando-se ao critério do artigo 8º, inciso III, da Resolução nº 33/22.
O que muda para o Mombach e para o Carrefour?
Segundo os autos, a aquisição representa para o Mombach “uma oportunidade de expandir sua atuação no varejo de alimentos no estado do Rio Grande do Sul”. A rede, que até então operava três supermercados sob a bandeira Mombach, todos em Montenegro, agora passa a incorporar o ponto comercial anteriormente operado como supermercado “Nacional”, marca do Grupo Carrefour.
Já para o Grupo Carrefour, o desinvestimento é visto como parte de uma estratégia de reestruturação no Brasil. A empresa, que atua no país em múltiplos segmentos (atacarejo, hipermercados, lojas de conveniência, drogarias, postos de combustíveis e e-commerce), descreveu o negócio como “uma boa oportunidade”.
A crise do Carrefour no Brasil
Vale lembrar que o Carrefour Brasil chegou a anunciar a venda de oito lojas da bandeira Nacional em Curitiba (PR), como parte de um plano mais amplo para desinvestir em 64 supermercados das marcas Nacional e BomPreço. A estratégia visa concentrar operações em grandes formatos, como hipermercados, e deve render cerca de R$ 400 milhões ao grupo. A movimentação ocorre em um cenário de reestruturação que inclui custos de desmobilização e ajustes financeiros, com conclusão prevista ainda para o primeiro semestre de 2025.
Enquanto reorganiza sua operação no Brasil, o grupo francês enfrenta um momento de turbulência global. A decisão de suspender a venda de carnes do Mercosul na França, em protesto contra um acordo comercial entre o bloco e a União Europeia, provocou uma reação em cadeia no Brasil: frigoríficos boicotaram as lojas do Carrefour, e a rede precisou recuar após críticas do agronegócio e do governo brasileiro. O episódio afetou a percepção do mercado e levou à venda de ações por parte dos herdeiros da família Diniz, controladora da empresa.
Contudo, a reputação do Carrefour no Brasil já vinha apresentando sinais de fragilidade por crises anteriores. Entre 2020 e 2024, a rede foi alvo de denúncias e ações civis públicas por episódios de racismo e violência em suas unidades, incluindo o assassinato de um homem negro por seguranças em Porto Alegre. As recorrentes acusações levaram a empresa a firmar termos de ajuste de conduta e a adotar campanhas públicas contra o racismo, mas organizações como a ONG Educafro Brasil se manifestaram e seguem cobrando reparação. À época, a ONG acionou sua equipe jurídica e disse que estuda tomar medidas judiciais para “buscar a responsabilização coletiva”.
Contexto regulatório e econômico
A aprovação do processo pelo Cade chama a atenção sobre a dinâmica do varejo alimentar brasileiro, marcado pela presença de grandes players nacionais e internacionais. Nos últimos anos, redes regionais têm se mostrado resilientes frente a gigantes como Carrefour, aproveitando nichos de mercado e maior proximidade com comunidades locais.
Para o Mombach, de capital 100% nacional e familiar, a aquisição fortalece sua presença local e sinaliza ambições de crescimento controlado. A rede busca garantir um posicionamento competitivo em Montenegro e ampliar a capacidade de atendimento no mercado regional.
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