O Ritual Esquecido: Zaratustra, a Harmonia Social e o Preço da Secularização

Políticas públicas podem erradicar a miséria, mas não fabricam sentido; o Estado provê, o rito integra. Nem sempre o bem vence o mal, e nem sempre se alcançam os objetivos pessoais, mas ao longo da jornada o bem prevalece quando há uma comunidade que o sustenta e o repete.

Marco Aurélio Bittencourt

Quando o Zaratustra de Friedrich Nietzsche desce da montanha para anunciar que Deus está morto, o que se apresenta como libertação carrega um esquecimento decisivo: o de que os rituais religiosos nunca foram apenas crença, mas técnica de convivência e de acalmamento da alma. Os testamentos cristãos, com seus mandamentos, cânticos e liturgias, não pretendem promover a evolução material ou imaterial da espécie; procuram moldar o bom estado da convivência e da própria vivência. A tese aqui sustentada é simples e, por isso mesmo, incômoda: sociedades que abandonam seus ritos rigorosos resolvem a sobrevivência, mas não resolvem o sentido imaterial da vida , e o preço dessa lacuna pode ser medido. Para chegar a essa medida, porém, convém começar pelo próprio texto que inaugurou a crítica, lendo-o com a atenção que ele mesmo pouco se dedicou ao que desprezava.

Logo na segunda seção do Prólogo, Zaratustra encontra na floresta um velho santo que vive de compor e cantar hinos em louvor a Deus. Despede-se dele com cortesia e, a sós, admira-se de que o eremita ainda não saiba da morte divina. Eis o erro de premissa: o louvor, o cântico e a repetição litúrgica fazem parte de um ritual que lubrifica a mente e o coração, independentemente do valor de verdade da crença que os sustenta. O santo não canta por ignorância, mas porque o canto o ordena por dentro. Curiosamente, Nietzsche, filho e neto de pastores luteranos, criado entre hinos e amante confesso da música, a ponto de afirmar que sem ela a vida seria um erro, conhecia esse efeito melhor do que ninguém; ainda assim, faz seu profeta passar pelo ritual como quem passa por uma ruína. E o que se ignora na floresta cobrará seu preço na praça.

Na praça, as seções seguintes expõem o programa de Zaratustra: o homem é algo que deve ser superado, uma corda estendida sobre um abismo entre o animal e o Super-Homem. Falta, contudo, a justificativa. Por que superar o homem? O texto afirma, não demonstra. Uma razão possível, que o próprio Nietzsche não oferece, seria a de que o homem deve crescer porque o universo é infinito; mas, se o infinito é por definição inalcançável, não há abismo a transpor, há apenas caminho a percorrer, em que o destino é mera parada para prosseguir sem fim. A imagem do abismo dramatiza o que deveria explicar. Mais revelador ainda é o desfecho da quinta seção: descrito o último homem, acomodado e satisfeito com pequenos prazeres, a multidão pede exatamente esse homem. Zaratustra lê nisso decadência; talvez fosse apenas o desejo humano, legítimo, por paz. Resta saber se essa paz, uma vez alcançada, basta, e é aqui que a filosofia pede o socorro dos números.

A evolução social pode ser aferida por dois limites individuais: a incapacidade de prover a si e aos seus, que marca o fracasso material, e o suicídio, que marca o fracasso existencial. Os Países Baixos oferecem um caso exemplar. Poucas sociedades alcançaram grau tão aceitável de harmonia social, com baixa pobreza e rede de proteção sólida, e isso desmente a suposição de que a cobiça humana, visível na época de Zaratustra, seja destino inescapável. O primeiro limite, portanto, confirma a tese da evolução. A contracultura dos anos 1960, que prometia libertar o homem de todas as amarras, e da qual restaram sobretudo a maconha e o ácido, jamais produziu algo semelhante; a harmonia holandesa veio de instituições, não de rupturas. Mas o segundo limite exige mais cuidado, porque taxas isoladas nada dizem.

Taxas só importam se desmontadas as armadilhas estatísticas expressas em números, paradoxais ou não. A genética pode ser um mistério; o convívio social, próprio de cada um; a experiência, vivida de alhures a algures. Daí a necessidade de comparar dentro e fora. Dentro, o índice holandês de suicídio subiu entre 2007 e 2013, estabilizou-se entre 10,3 e 10,9 por 100 mil habitantes de 2018 a 2024 e caiu para 9,7 em 2025, o menor desde 2010, enquanto cresce entre jovens, sobretudo mulheres. Fora, a média da União Europeia foi de 10,4 em 2023. Pelos dados da Organização Mundial da Saúde de 2021, ajustados por idade, os Países Baixos registravam 11,5, abaixo da Bélgica (18,4), da França (16,6) e da Alemanha (12,9), mas acima do Brasil (7,6) e da Itália (7,0). Repita-se, para que não se perca o essencial: países menos ricos e com menor proteção social apresentam taxas menores. A prosperidade, sozinha, não explica o quadro. Antes de buscar a explicação, contudo, é preciso depurar a base.

Toda comparação populacional exige retirar as diferenças da base, e a principal delas, num país de imigração intensa, é a origem. Os estudos holandeses que separam os grupos revelam que turcos e marroquinos têm taxas de suicídio significativamente menores que as dos nativos, enquanto surinameses e imigrantes ocidentais as têm maiores. O migrante de primeira geração compara a vida nova com a antiga e sente-se, por assim dizer, no Éden. Seus filhos, porém, são simplesmente nativos de fato: nascidos e educados no país, perdem esse ponto de comparação, e suas taxas convergem para as dos holandeses. Depurada a base, o retrato dos nativos não melhora; tende a permanecer igual ou piorar ligeiramente. Nas grandes cidades, nativos que vivem em bairros de maioria estrangeira registram taxas mais altas, dado que se explica melhor pelo isolamento de quem ficou do que pela convivência em si. Resta, então, a pergunta: o que protege os grupos que resistem?

A resposta mais consistente está no abandono dos rituais nativos rigorosos. Émile Durkheim, em O Suicídio, de 1897, já observara que protestantes se matavam mais que católicos e judeus, e atribuíra a diferença não à doutrina, mas à integração e à regulação: religiões de ritos frequentes, regras firmes e vida comunitária intensa prendem o indivíduo a algo maior que ele. Quando esses laços se afrouxam, instala-se a anomia, a condição de quem está solto, sem norma nem pertencimento. Os Países Baixos passaram, em poucas décadas, de uma sociedade organizada em pilares confessionais calvinistas e católicos para uma das mais secularizadas da Europa. Turcos e marroquinos, por sua vez, preservam rituais religiosos e familiares rigorosos; a segunda geração, ao integrar-se, deles se afasta, e as taxas convergem. O efeito vem menos da fé solitária que do rito partilhado.

Conclui-se, assim, que a harmonia social holandesa é real, mas incompleta. O primeiro limite foi vencido: quase ninguém fica sem meios de prover a si e aos seus. O segundo permanece aberto, porque resolver a sobrevivência não responde à pergunta sobre para que viver (o que pode resultar de política pública mal concebida), e essa resposta, historicamente, veio do rito coletivo, não do bem-estar material. Zaratustra tinha razão ao desconfiar do homem satisfeito, mas errou o diagnóstico: o risco não está no conforto, e sim no conforto sem pertencimento. Superação e harmonia não são opostas, como bem demonstrou, quase um século depois e em outro continente, Bruce Lee, que uniu disciplina extrema e fluidez taoista, superação de si e respeito ao outro. O profeta que despreza o canto do santo perde justamente aquilo que manteria de pé o homem que deseja elevar. Nessa linha, não taoísta, Bruce Lee procurando o homem ideal se deparou precocenente com a morte natural.

Daí decorrem ilações que ultrapassam a Holanda. Políticas públicas podem erradicar a miséria, mas não fabricam sentido; o Estado provê, o rito integra. Nem sempre o bem vence o mal, e nem sempre se alcançam os objetivos pessoais, mas ao longo da jornada o bem prevalece quando há uma comunidade que o sustenta e o repete. Sociedades secularizadas talvez precisem, se não da fé, ao menos do que a fé organizava: a regularidade, o encontro, o canto comum. O último homem, afinal, não é o que quer paz, mas o que perdeu os ritos que davam forma a essa paz. O velho santo, cantando sozinho na floresta, estava menos atrasado do que supunha Zaratustra; talvez estivesse apenas adiante dele.

Fontes: CBS – suicídios em 2025 · CBS – suicídios em 2024 · Eurostat – suicídios na UE, 2023 · Dados OMS 2021 por país · Garssen et al., migrantes e nativos · Densidade étnica e suicídio · Psicose, suicídio e migração

Compartilhe nas redes sociais