O multiplicador estrutural em uma economia aberta
Países não permanecem atrasados porque importam muito; importam excessivamente porque produzem sem encadear, aprender e inovar. Não estranho o rodízio automático dos ditadores no Brasil. A ditadura única de Getulio Vargas foi diferente, e não estranho isso.

Marco Aurélio Bittencourt
O multiplicador keynesiano tradicional da economia aberta parte da identidade segundo a qual o produto interno bruto corresponde ao consumo mais investimento, gasto público e às exportações, descontadas as importações. O problema surge quando essa igualdade contábil é transformada diretamente numa explicação causal. As importações aparecem com sinal negativo apenas porque representam produção realizada fora do território nacional. Esse sinal não significa que importar destrua renda ou reduza necessariamente a atividade econômica. Se essa interpretação fosse verdadeira, o desenvolvimento exigiria importações iguais a zero, conclusão evidentemente absurda. As importações podem fornecer máquinas, tecnologias e insumos indispensáveis ao crescimento da própria produção nacional e , infelizmente na maioria dos casos para o Brasil, mais importações derivadas dessas e dessas.
Por isso, as importações não devem ser tratadas simplesmente como vazamento de renda. O pagamento de um produto importado envolve empresas nacionais, comércio, transporte, salários, impostos e serviços financeiros, embora parte do valor adicionado tenha sido produzido no exterior. A questão essencial não é saber apenas quanto o país importa, mas compreender o que importa e como esses bens participam da produção. Importar máquinas capazes de ampliar a produtividade é economicamente diferente de importar um produto final que poderia ser fabricado competitivamente no país. O sinal negativo das importações serve para calcular o produto interno, mas não descreve sozinho seus efeitos econômicos.
O multiplicador economicamente relevante deve considerar a estrutura produtiva. Quando um aumento da demanda alcança uma empresa nacional, ela compra insumos de outras empresas, que também contratam trabalhadores e fornecedores, formando sucessivas rodadas de produção e renda. Quanto mais densas forem essas relações internas, maior será o efeito multiplicador. Quando os componentes essenciais são importados, a demanda não aciona novas etapas produtivas dentro do país, embora possa elevar a produtividade futura. Portanto, o multiplicador depende dos encadeamentos domésticos, do conteúdo importado, do valor adicionado nacional e da composição concreta do gasto. Não existe uma única propensão a importar capaz de representar adequadamente todas essas relações.
A industrialização brasileira avançou principalmente na fabricação de bens finais, mas não completou os elos estratégicos de suas cadeias produtivas. Muitas empresas instalaram linhas de montagem no país, mantendo no exterior a engenharia, a tecnologia, as máquinas e os componentes mais complexos. O Brasil passou a produzir automóveis, equipamentos e aparelhos eletrônicos sem dominar integralmente os conhecimentos necessários para desenvolver as gerações seguintes desses produtos. Por isso, toda expansão da demanda elevava rapidamente as importações, pressionava as contas externas e interrompia o crescimento. O problema não era simplesmente importar muito, mas produzir internamente sem criar fornecedores, engenharia e capacidade tecnológica nacionais.
A política industrial precisa enfrentar essa deficiência sem transformar proteção econômica em privilégio permanente. Financiamentos, tarifas e compras públicas devem ser condicionados a metas verificáveis de engenharia local, desenvolvimento de fornecedores, produtividade, valor adicionado e exportações. A simples exigência de participação de engenheiros nacionais seria insuficiente, pois poderiam surgir contratos fictícios ou departamentos meramente formais. É necessário verificar projetos, patentes, processos produtivos, componentes utilizados e capacidade real de reprojetar os produtos. Empresas que não cumprirem as metas devem perder automaticamente os benefícios e devolver os recursos recebidos. Sem fiscalização e sanção, o empresário racionalmente captura o incentivo sem produzir o aprendizado pretendido.
A proteção também deve possuir prazo determinado e terminar com a abertura gradual à concorrência internacional. Nessa linha poucos entendem que o tarifaço de Trump é pró-Brasileiros, mas não aos empresários de sempre por aqui. Esse foi o estágio que o Brasil raramente completou: protegeu empresas durante décadas, mas não exigiu que se tornassem competitivas. A Coreia do Sul, ao contrário, vinculou o apoio estatal ao aumento da produtividade e das exportações, retirando benefícios de quem não apresentava resultados. Uma política industrial eficiente compra desempenho tecnológico, não promessas empresariais. Seu objetivo é fazer com que a demanda gere produção, renda, conhecimento e novas empresas dentro do país. Em síntese, países não permanecem atrasados porque importam muito; importam excessivamente porque produzem sem encadear, aprender e inovar. Não estranho o rodízio automático dos ditadores no Brasil. A ditadura única de Getulio Vargas foi diferente, e não estranho isso.
