A biologia política e econômica no Brasil pré-eleitoral de 2026: o hospedeiro e o parasita[1]
Se a biologia política e econômica nos aflige e amedronta, a biologia natural nos alenta e emociona. O pessimismo presente pode se transformar em otimismo futuro ao observar as virtudes do Brasil: um país fora de zonas de conflito, bem relacionado do ponto de vista geopolítico, com recursos naturais abundantes e competitivos — água, sol, vento, terras raras, gás natural, petróleo, biometano, etanol, entre outros — e uma população criativa e trabalhadora.
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Cristiane Alkmin J. Schmidt
O Brasil está às vésperas das eleições de 2026, e a economia política e a economia do país estão na UTI. O diagnóstico não permite que o brasileiro seja um realista esperançoso, como gostaria Suassuna. O pessimismo é, infelizmente, o sentimento da maioria. O que nos espera em 2027, considerando que o hospedeiro Brasil já não aguenta mais alguns dos parasitas que nele habitam?
No campo da economia política, a governança do país exige mudanças. De fato, a base institucional de uma sociedade democrática — arquitetada em 1748 por Montesquieu e que baliza até hoje a teoria constitucional — é fundamentada na existência de três poderes independentes, cada um contendo os excessos dos demais. Em outras palavras, é condição necessária para uma sociedade funcionar harmonicamente, embora não seja suficiente, que o Legislativo legisle (elaborando leis que levem o país a um maior desenvolvimento e bem-estar econômico); que o Executivo execute (o orçamento, dentro de um arcabouço jurídico previamente traçado); e que o Judiciário julgue (os conflitos interpretativos, aplicando as leis a casos concretos).
Hoje, contudo, o que se vê é um modelo diferente do idealizado: o Judiciário, incluindo o seu órgão máximo, o STF, legisla; o Congresso, por meio das emendas, executa parte relevante do orçamento discricionário (aprox. R$ 60 bi de um total de R$ 220 bi); e o Executivo não tem orçamento próprio para executar o plano de governo para o qual foi eleito, tendo que gastar obrigatoriamente em políticas públicas definidas no passado (o que resulta em menos de 10% do orçamento total para despesas livres). A falta de uma alternância salutar no Legislativo — dado que os incumbentes são empoderados pelas emendas —, as indicações partidárias e de pessoas jovens (em detrimento do currículo excepcional na área jurídica e da experiência) para compor a mais alta Corte do país, e as nomeações no Executivo por coleguismo, e não por notório saber ou competência, ajudam a explicar por que o Estado tem apresentado uma gestão tão parasitária.
Somente um Estado sem foco no cidadão, mas em si mesmo, tem a coragem de gastar com fundo partidário e fundo eleitoral (R$ 6 bilhões) três vezes mais do que gasta com pesquisa junto ao CNPq (R$ 2 bilhões). Ou de ter o gasto do Judiciário e do Legislativo entre os maiores do mundo. Ou de apresentar resultados pífios no PISA (avaliação de desempenho entre 81 países — 52º em leitura, 65º em matemática e 61º em ciências), mesmo tendo um gasto/PIB em educação nos níveis dos países da OCDE. Ou de ter carga tributária (34% do PIB) também em níveis de países ricos, sem oferecer serviços públicos da qualidade observada nesses países.
O Brasil, portanto, precisa de um antiparasitário nessa seara, sob pena de matar o hospedeiro. Uma saída é que haja, em jan/27, uma concertação entre os três Poderes, liderada pelo Executivo. O Brasil precisa, com urgência, da volta de uma organização institucional funcional, tal qual idealizada por Montesquieu, com o propósito de atender às demandas sociais, que não são poucas.
Na esfera econômica, por sua vez, a conjuntura doentia não fica atrás. Depois de a D/PIB ter alcançado 82,5% (R$ 11 trilhões — lembrando que, em 2023, ela era de 72%), com crescimento anual médio de 2,5% no período 2023–2026, um freio na ampliação dos gastos públicos precisa ocorrer para não aniquilar o hospedeiro Brasil, que tem crescido à base de estímulos à demanda, e não pelo aumento de sua capacidade produtiva. Com hiato positivo — isto é, com a demanda agregada acima da oferta —, a inflação é pressionada (nos próximos anos, o IPCA deverá ficar acima da meta de 3%, segundo o Focus). Com os gastos primários tendo aumentado 23% entre 2023 e 2026, ante um crescimento do PIB de 11%, com a falta de credibilidade na execução da política fiscal (o que dificulta o trabalho do BCB para reduzir a taxa Selic, hoje em 14%) e com a relutância em reconhecer que uma crise de crédito está sendo gestada, a taxa de juros real, que estava em 7% em 2024, tem ficado acima da neutra (5%) e hoje está em 8%. É o preço se manifestando. É o mercado precificando.
Urge, assim, uma reversão de 180º nas expectativas dos agentes pessimistas. Isso, contudo, só ocorrerá se a sociedade confiar que um bom plano de ajuste fiscal será exequível. É só assim que a curva de juros voltará a patamares de 5% a 6%. Sinalizações, portanto, são importantes, e uma delas, indubitavelmente, é a união dos Poderes em torno da importância de se concretizar um ajuste fiscal, restabelecendo a governança do país sob o novo presidente da República. Será uma discussão difícil, sem dúvida, mas necessária, pois envolverá direitos constitucionais, privilégios supostamente adquiridos e regras que parecem estar à margem da realidade brasileira, em que a renda média do trabalhador é de R$ 3.750/mês, e a renda per capita (US$ 11 mil) é cinco vezes menor do que a do estado americano mais pobre, o Mississippi (US$ 53 mil).
Vale mencionar alguns dados para mostrar que a situação é delicada. Segundo a CNC, em julho/26, 82% dos consumidores disseram ter algum tipo de dívida a vencer, e a inadimplência bateu recorde no mesmo mês, alcançando 84 milhões de consumidores; segundo o BCB, as famílias passaram a comprometer 29% da renda com dívidas, e os atrasos no pagamento do consignado atingiram 10% (maior taxa desde 2011); segundo a Serasa, a inadimplência das empresas atingiu mais de 9,1 milhões de empresas — um recorde —, com dívidas negativadas somando R$ 233 bilhões, e o agro registrou 474 pedidos de recuperação judicial (RJ) no 1º tri/26, alta de 22%; segundo o RGF-BIZDOC, há 6.341 empresas em RJ ou em recuperação extrajudicial (REJ), em um universo de 2,76 milhões de empresas do núcleo relevante da economia, com dívidas que beiram R$ 180 bilhões; e, segundo o Poder360 (com base em dados do governo paraguaio e da Câmara de Empresários Brasileiros no Paraguai), 232 empresas migraram para o Paraguai desde 2007 em busca de menos imposto e burocracia. Some-se a isso o fato de o número de pessoas em situação de rua registradas no CadÚnico ter saltado de 199 mil em dez/2022[2] para 392 mil em jun/2026, e de haver hoje mais pessoas no Bolsa Família (49,6 milhões) do que trabalhadores do setor privado com carteira assinada, seja pela PNAD (39,4 milhões), seja pelo Caged (48,1 milhões).
Para além de as pessoas estarem afogadas em dívidas, questiona-se a sustentabilidade da trajetória futura da dívida pública, caso os gastos primários sigam crescendo na velocidade atual. De forma estática, se a taxa de juros real for de 8% e a economia crescer 2%, para estabilizar a D/PIB em 82% seria preciso obter um superávit de 5% do PIB (ou R$ 650 bilhões) — algo extremamente difícil. Se, por sua vez, a economia desandar e crescer 1% ou 0,5%, o superávit teria que ser ainda maior: entre 5,74% (R$ 750 bilhões) e 6,15% (R$ 800 bilhões), respectivamente. É óbvio que, dinamicamente, com o resgate da credibilidade, parte do juro real perde força, contribuindo para um ajuste menor.
O problema é que um cenário de crescimento menor em 2027 é esperado. De fato, a economia cresceu, em média, 2,7% a.a. no período 2023–2026, e esse crescimento não decorreu de aumento de produtividade, mas da diminuição da taxa de desemprego (de 8,4% em jan/2023 para 5,3% em 2026 — 5,8 milhões de pessoas). Como essa margem de queda do desemprego deverá se esgotar nos próximos anos, é muito provável que o PIB cresça em 2027 entre 0,5% e 1%, apesar de o Focus projetar 1,5% (menor, de todo modo, do que a projeção para 2026, de 1,9%).
Considerando um cenário otimista, em que a questão “urgente” — o inevitável ajuste fiscal — seja endereçada, há que focar no problema “relevante”, que é o de trazer o país para uma rota de crescimento sustentável de 3% a 4% a.a., entendendo que hoje o PIB potencial é de aprox. 2% a.a. Não é tarefa trivial, considerando o fim do bônus demográfico (2020), a taxa de investimento medíocre há tempos (17% do PIB vs. 26% no mundo) e uma produtividade que cresce, em média, nos últimos 46 anos, a apenas 1% a.a. Há políticas capazes de aumentar a taxa de crescimento da produtividade do Brasil, resumidas em diversos trabalhos, como os do CDPP (Centrro de Debate de Política Públicas) e da Comunitas, mas antes há que cuidar das contas. Afinal, não há responsabilidade social sem responsabilidade fiscal.
Se a biologia política e econômica nos aflige e amedronta, a biologia natural nos alenta e emociona. O pessimismo presente pode se transformar em otimismo futuro ao observar as virtudes do Brasil: um país fora de zonas de conflito, bem relacionado do ponto de vista geopolítico, com recursos naturais abundantes e competitivos — água, sol, vento, terras raras, gás natural, petróleo, biometano, etanol, entre outros — e uma população criativa e trabalhadora. Mas, assim como o petróleo que só tem valor fora do solo, quando explorado; que 2027 seja o ano da reversão de rumo para que o Brasil possa atrair muitos investimentos e creser mais de de forma sustetável. Afinal, é possível matar os parasitas incumbentes e resgatar o hospedeiro deslumbrante. A realidade esperançosa pode se impor. Tomara.
[1] O título deste artigo foi inspirado na entrevista de Giannetti e Samuel (Estadão, 28/08).
[2] Entre 2019 e 2022, foram registrados, em média, cerca de 2 mil novos moradores de rua por mês e entre janeiro de 2023 e junho de 2026, a média teria sido de 4,6 mil por mês. Ou seja, 4,6/2 = 2,3 vezes mais (https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/populacao-de-rua-no-brasil-dobra-apos-tres-anos-e-meio-de-lula/?utm_source=chatgpt.com)
Cristiane Alkmin Junqueira Schmidt é economista com mestrado e doutorado pela EPGE/FGV, tendo sido Visiting Scholar pela Universidade de Columbia/NY. Atualmente é Presidente da MSGÁS e Presidente da ABDE (associação brasileira de direito e economia). Com mais de 30 anos de carreira no setor público e privado, Schmidt é colunista da Conjuntura Econômica, Instituto Millenium, WebAdvocacy e já participou de diversos conselhos fiscais e de administração. No setor público, além de outros cargos, Schmidt foi Secretária da Economia de Goiás por 4 anos e meio (Caiado), Conselheira do CADE por 4 anos e Secretária-adjunta da SEAE/MF (FHC/Malan) por outros 4. No setor privado, Schmidt teve passagens pelo Itau, Embratel, Cimentos Progreso (Guatemala), dentre outros lugares. Ja foi consultora do Banco Mundial e da Unctad, é coautora de livros em economia e reconhecida por sua contribuição acadêmica e profissional.
