Revisando Rangel e os estruturalistas: um clássico que envelheceu mal

À luz de uma leitura crítica, não há razão para manter A Inflação Brasileira como referência fundamental para o estudo da economia brasileira. O livro permanece interessante sobretudo como registro histórico de um momento do debate econômico — e como exemplo de como intuições estruturais, quando não sustentadas por rigor lógico e metodológico, podem produzir interpretações sedutoras, mas analiticamente frágeis.

Marco Aurélio Bittencourt

Durante décadas, A Inflação Brasileira, de Ignacio Rangel, foi tratado como uma referência importante na interpretação estruturalista da economia brasileira. A obra pretendia explicar o fenômeno inflacionário a partir das características estruturais da economia nacional — especialmente sua organização produtiva, a estrutura agrária e o comportamento da demanda. No entanto, uma leitura crítica revela que muitos dos argumentos apresentados sofrem de problemas lógicos e metodológicos significativos. Mais do que uma contribuição duradoura para a teoria econômica, o livro acabou se tornando um exemplo de como intuições históricas podem ser comprometidas por análises conceituais frágeis.

Um dos problemas centrais está na tentativa de explicar a inflação por fatores estruturais independentes da moeda. Rangel frequentemente sugere que a elevação de preços pode induzir a emissão monetária. Contudo, essa formulação inverte a lógica básica do fenômeno inflacionário: aumentos persistentes do nível geral de preços exigem validação monetária. Pressões setoriais podem alterar preços relativos, mas não geram inflação generalizada sem expansão de liquidez. A análise acaba confundindo identidade contábil observada ex post com mecanismos causais efetivos.

Esse problema metodológico aparece também quando o autor argumenta que a inflação poderia coexistir com insuficiência de demanda global. A observação de que alguns setores enfrentam excesso de demanda enquanto outros operam com capacidade ociosa não constitui explicação causal da inflação; trata-se apenas de uma configuração possível da economia após o processo inflacionário. Ao transformar essa descrição em explicação, o autor desloca a análise do terreno dos mecanismos econômicos para o da mera observação estrutural.

Outro ponto frágil surge no capítulo dedicado à estrutura agrária e à chamada propensão a consumir. Rangel sugere que a organização agrária brasileira reduziria a propensão média a consumir da sociedade, limitando o mercado interno. Contudo, a propensão a consumir é um parâmetro comportamental; o verdadeiro problema do campo brasileiro sempre foi a baixa renda gerada por um sistema produtivo de baixíssima produtividade por hectare. O latifúndio extensivo, frequentemente associado à pecuária de baixa intensidade e à subutilização da terra, produziu uma estrutura rural com pouca geração de renda e pouca densidade produtiva. O problema fundamental, portanto, não era uma suposta propensão a consumir insuficiente, mas sim a restrição estrutural de renda.

Esse diagnóstico conduz a uma questão institucional mais profunda: o acesso à terra. Desde o século XIX era conhecido o problema da concentração fundiária e da dificuldade de acesso à propriedade rural. Já no Império discutia-se uma solução relativamente clara: aquisição de terras pelo Estado e sua posterior distribuição a famílias sem terra. Esse tipo de política, adotado em diversos países que posteriormente industrializaram com sucesso, ampliou a base de pequenos proprietários, elevou a produtividade agrícola e expandiu o mercado interno. No Brasil, entretanto, a ausência de políticas públicas nessa direção manteve o problema agrário praticamente intacto.

Paradoxalmente, parte da tradição estruturalista acabou marginalizando esse ponto institucional. Ao privilegiar a industrialização como motor do desenvolvimento, muitos autores deslocaram o foco do problema agrário para questões de demanda e estrutura produtiva. O resultado foi uma análise que reconhecia o atraso do campo, mas raramente colocava a reforma institucional da propriedade da terra no centro da explicação econômica.

A própria análise macroeconômica de Rangel sofre de simplificações semelhantes. No capítulo que trata da preferência pela liquidez e do déficit orçamentário, por exemplo, o argumento parece menos uma teoria geral da inflação e mais uma descrição do arranjo institucional brasileiro anterior às reformas financeiras da década de 1960. Naquele período, o Banco do Brasil acumulava funções de banco comercial e autoridade monetária, e o financiamento de déficits fiscais ocorria frequentemente por expansão de crédito público, na ausência de um mercado estruturado de dívida pública. O fenômeno descrito, portanto, decorre mais de características institucionais específicas do sistema financeiro da época do que de um mecanismo macroeconômico geral. Vale lembrar que a edição original é de 1963.

Situação semelhante ocorre no capítulo sobre a chamada taxa de imobilização do sistema. O autor tenta relacionar investimentos em capital fixo e restrições de liquidez com pressões inflacionárias, mas acaba misturando conceitos que pertencem a níveis analíticos distintos: estrutura de capital e liquidez monetária. A relação causal proposta permanece pouco clara, e o conceito introduzido não acrescenta poder explicativo relevante à análise do fenômeno inflacionário.

No conjunto, a obra revela um padrão recorrente: observações históricas frequentemente corretas são combinadas com formulações conceituais frágeis ou mal especificadas. O resultado é uma teoria que pretende explicar a inflação brasileira a partir de fatores estruturais amplos, mas que acaba deixando em segundo plano os mecanismos monetários e institucionais efetivamente responsáveis pela dinâmica inflacionária.

Isso não significa que o livro seja irrelevante. Como documento intelectual de uma época, ele ajuda a compreender o ambiente teórico em que se formou grande parte do pensamento econômico desenvolvimentista no Brasil. Entretanto, sua utilidade contemporânea parece residir menos na validade de suas teses e mais no valor pedagógico de seus equívocos analíticos.

À luz de uma leitura crítica, não há razão para manter A Inflação Brasileira como referência fundamental para o estudo da economia brasileira. O livro permanece interessante sobretudo como registro histórico de um momento do debate econômico — e como exemplo de como intuições estruturais, quando não sustentadas por rigor lógico e metodológico, podem produzir interpretações sedutoras, mas analiticamente frágeis.


Marco Aurélio Bittencourt. Professor do Instituto Federal de Brasília – IFB , na área de gestão e negócios. Doutorado em Economia pela Unb.

Acesse a página do Colunista Marco Aurélio Bittencourt.