A Democracia Capturada e a Lógica de Foucault

O desafio que se coloca, portanto, não é apenas preservar as instituições democráticas, mas enfrentar a sua captura. E, aqui, Foucault oferece uma lição preciosa: onde há poder, há resistência.

Marco Aurélio Bittencourt

Nosso tempo se orgulha de viver sob regimes democráticos. Temos eleições, parlamentos, tribunais constitucionais, uma mídia plural que garante a circulação de ideias e, em tese, cidadãos livres para se expressar. Mas basta um olhar mais atento para perceber que essa democracia tem um preço alto: a captura de suas instituições por interesses privados que, de forma cada vez mais sofisticada, ditam quais vozes são ouvidas, quais discursos ganham legitimidade e quais são silenciados.

Essa percepção não é nova, mas ganha profundidade quando lida à luz de Michel Foucault. O filósofo francês insistiu que a verdade não é algo puro, emergindo diretamente da vontade popular ou da racionalidade neutra da ciência. A verdade, dizia ele, é sempre o efeito de relações de poder. Ela se constrói nos tribunais, nos hospitais, nas escolas, nas estatísticas e, no mundo contemporâneo, nas manchetes e relatórios financeiros.

Ao falar em captura do Estado pelo setor privado, não me refiro a um “grande poder central” que manipula tudo, mas a um entrelaçamento de práticas, saberes e instituições. Bancos que divulgam relatórios econômicos tomados como ciência incontestável; grupos de mídia que estabelecem a pauta do debate público; escritórios de advocacia e consultorias que redigem projetos de lei — tudo isso forma uma rede de produção da verdade que, na prática, filtra a voz popular.

A democracia continua existindo, sim. As eleições seguem ocorrendo, e o jogo institucional preserva sua fachada de normalidade. Mas a verdade que circula em seu interior é hegemonicamente construída. O povo vota, protesta, reivindica, mas sua voz chega às instâncias de poder já mediada pelos filtros da elite econômica. E aqui está o ponto foucaultiano essencial: o regime democrático, mesmo formalmente aberto, produz suas verdades a partir das posições ocupadas por quem detém mais capital — econômico, cultural ou simbólico.

O resultado é um paradoxo. Para os governados — os “vassalos” da lógica social — o regime de verdade se aplica de forma disciplinadora, classificando-os, normalizando suas condutas, punindo desvios. Já para os efetivamente poderosos, as margens de manobra são amplas: eles podem transgredir normas, manipular estatísticas, reescrever leis. Não se trata, portanto, de ausência de democracia, mas de sua captura por uma lógica que confirma, e não contradiz, a tese de Foucault: a verdade nunca é neutra, é sempre política.

É preciso abandonar a ingenuidade de imaginar que a democracia por si só gera uma “verdade do povo”, pura e incontestável. A experiência histórica mostra que a democracia formal pode coexistir com regimes de verdade hegemonicamente produzidos, onde a voz popular é menos um fundamento e mais uma matéria-prima a ser lapidada, domesticada e redirecionada por instituições já ocupadas por interesses privados.

O desafio que se coloca, portanto, não é apenas preservar as instituições democráticas, mas enfrentar a sua captura. E, aqui, Foucault oferece uma lição preciosa: onde há poder, há resistência. Se a verdade é produzida, pode também ser contestada. Se as instituições são capturadas, podem ser tensionadas. A democracia só continuará digna desse nome se não for apenas o palco da repetição de verdades fabricadas, mas também o espaço aberto para disputá-las.


Nota de rodapé

“A verdade não está fora do poder, nem sem poder. Ela é deste mundo, produzida por múltiplas coerções e efeitos de poder.” – Michel Foucault, A Verdade e as Formas Jurídicas (Nau Editora, 1999, p. 12).


Marco Aurélio Bittencourt. Professor do Instituto Federal de Brasília – IFB , na área de gestão e negócios. Doutorado em Economia pela Unb.

Email: 0171969@etfbsb.edu.br 


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