Brasília, 4 de novembro de 2025
A Kimberly-Clark anunciou nesta segunda-feira (3) a compra da Kenvue, ex-subsidiária da Johnson & Johnson, por cerca de US$ 40 bilhões, em uma das maiores aquisições do setor de bens de consumo dos últimos anos. A transação ocorre em meio a um cenário delicado para a fabricante do Tylenol, envolvida em disputas judiciais e questionamentos sobre a segurança do medicamento.
Logo após o anúncio, as ações da Kimberly-Clark sofreram forte queda, refletindo a preocupação de analistas com o prêmio de 46% pago pela companhia. A percepção é de que o grupo “pode estar comprando um ativo problemático”. Enquanto isso, os papéis da Kenvue dispararam quase 20%, impulsionados pelo alívio de investidores que há meses pressionavam a empresa por alternativas estratégicas — incluindo a venda parcial de marcas.
Tylenol volta ao centro das controvérsias
A aquisição ocorre em meio à turbulência gerada por acusações ligando o uso do Tylenol durante a gravidez a casos de autismo infantil — uma hipótese sem respaldo científico, mas que ganhou força após declarações do presidente Donald Trump.
As afirmações contribuíram para uma queda de 11% nas vendas do analgésico nos Estados Unidos entre setembro e outubro, segundo relatório do BNP Paribas. Além disso, a Kenvue enfrenta centenas de ações judiciais por supostos danos causados tanto pelo Tylenol quanto por produtos à base de talco.
Sinergias e riscos calculados
Apesar da controvérsia, a Kimberly-Clark vê na aquisição uma oportunidade de ganhar escala e diversificar receitas. A empresa estima sinergias de US$ 2,1 bilhões por ano e uma receita combinada próxima de US$ 32 bilhões, impulsionada por marcas fortes como Listerine, Aveeno e Neutrogena.
Especialistas avaliam que o portfólio complementar das duas companhias — presentes lado a lado nas prateleiras de farmácias e supermercados — justifica parte da aposta, ainda que o passivo jurídico da Kenvue represente um desafio considerável.
Mudança de rumos e financiamento
A operação faz parte da estratégia de “transformação” da Kimberly-Clark, que recentemente vendeu parte de seu negócio internacional de papéis higiênicos à brasileira Suzano para liberar capital e focar em produtos de maior valor agregado.
De acordo com o acordo firmado, os acionistas da Kenvue receberão US$ 3,50 em dinheiro e 0,15 ação da Kimberly-Clark por cada papel detido. O fechamento da transação está previsto para o segundo semestre de 2026, e será financiado por uma combinação de caixa e dívida, com apoio do banco JPMorgan Chase.
Caso o negócio seja desfeito, está prevista uma multa de US$ 1,12 bilhão para qualquer uma das partes. Após o fechamento, Mike Hsu, atual CEO da Kimberly-Clark, assumirá também o comando da companhia resultante.
Um movimento de alto risco
Para parte do mercado, o negócio marca uma aposta de longo prazo em marcas reconhecidas que vinham sendo negociadas a preços baixos por causa das controvérsias recentes. No entanto, outros analistas enxergam a operação como prematura, considerando que a Kimberly-Clark ainda passa por reestruturação e enfrenta um consumidor cada vez mais sensível a preços.
A fusão, se bem-sucedida, poderá redefinir o mapa global do setor de higiene e cuidados pessoais — mas também testará a capacidade da nova gigante de equilibrar crescimento e reputação em um ambiente de forte escrutínio público.
Fonte: Reuters
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