O Legado do Medo: Narrativa, Política e Autonomia na Pandemia de COVID-19

Se a pandemia ensinou algo aos gestores do poder, foi que o medo é eficaz, rápido e difícil de contestar. Mas a democracia sobrevive apenas onde o medo não sufoca o debate. É preciso lembrar: o medo protege, mas também adoece. E pode, como neste caso, ter matado menos do que curado, mas ferido mais do que se admite.

Marco Aurélio Bittencourt

A pandemia de COVID-19 não foi apenas um evento biológico ou sanitário. Ela se estabeleceu como um episódio de alcance político, epistemológico e emocional que alterou profundamente os limites entre autoridade, liberdade e ciência. O medo foi mobilizado institucionalmente, a ciência instrumentalizada para consolidar consensos artificiais e narrativas concorrentes foram silenciadas em nome da segurança pública. Contrastando com a pandemia de gripe espanhola de 1918, é possível examinar o papel do tratamento precoce, a centralidade das vacinas, os efeitos do autoritarismo sanitário e as consequências sociais da desigualdade na distribuição das mortes.

Durante a crise da COVID-19, o critério do ensaio clínico randomizado e duplo-cego foi alçado à condição de única forma de verdade científica. Em vez de ser um método entre outros, tornou-se dogma. A autonomia médica foi suspensa por protocolos centralizados que desautorizavam qualquer forma de experiência clínica empírica. Muitos médicos que prescreviam medicamentos com base em anos de observação prática e farmacologia conhecida foram censurados, perseguidos ou ridicularizados. O rótulo de “negacionismo” passou a ser usado para deslegitimar qualquer proposta terapêutica que não estivesse de acordo com a linha oficial. A ciência, que deveria promover o debate, foi convertida em instrumento de silenciamento.

Diversas narrativas paralelas circularam durante a pandemia, com graus variados de plausibilidade. Algumas apontavam para interesses econômicos da indústria farmacêutica, que lucraria com a exclusividade das vacinas e a rejeição a terapias baratas. Outras sugeriam o uso político da pandemia por governos autoritários. Um exemplo relevante é o caso da China e dos protestos em Hong Kong: em meio a uma onda de manifestações por autonomia política, a disseminação da narrativa da pandemia serviu para esvaziar as ruas. Em ambos os casos, o medo foi mobilizado como estratégia de controle. Não se trata de defender uma narrativa conspiratória, mas de reconhecer como diferentes atores usaram o medo como ferramenta política.

Esse uso do medo ganha ainda mais destaque quando contrastamos com o passado. Durante a gripe espanhola de 1918, cerca de 1,2% da população do Rio de Janeiro morreu. Com a COVID-19, o índice foi de 1,8%. A diferença de 0,6 ponto percentual representa, em termos relativos, um aumento de 50%. Embora numericamente expressiva, essa diferença não pode ser considerada automaticamente relevante sem considerar o contexto mais amplo. O erro metodológico estaria em presumir significância apenas pela variação percentual, ignorando fatores como estrutura etária, densidade urbana, capacidade de resposta hospitalar e variação natural da mortalidade ao longo do tempo. Ademais, como epidemias tendem a afetar desproporcionalmente os mais pobres — e considerando que a pobreza urbana atual é significativamente mais dramática em termos de densidade, informalidade e exposição ao risco do que em 1918 —, é possível que a vulnerabilidade estrutural da população tenha tido maior impacto na elevação das mortes do que o vírus em si. Ainda assim, a forma como essa diferença foi politicamente instrumentalizada revela mais sobre a construção simbólica da crise do que sobre sua letalidade objetiva. Em 1918, a tragédia foi enfrentada como uma calamidade sanitária. Em 2020, ela foi transformada em estado de exceção global. Por isso, mesmo que a diferença em termos de mortalidade não pareça suficiente para justificar o medo generalizado, é no aumento expressivo de transtornos mentais e casos de ansiedade que os efeitos da política do medo podem ser percebidos com mais nitidez. Não se trata apenas de contabilizar óbitos, mas de entender como a percepção social de risco, amplificada institucionalmente, afetou de forma duradoura a saúde mental coletiva.

Em 1918, não se falava em “pandemia” com a mesma força simbólica atual. Não houve organização internacional que centralizasse narrativas, tampouco protocolos globais de bloqueio social. A crise foi tratada como uma tragédia sanitária, não como um estado de exceção globalizado. A nomenclatura atual serviu para uniformizar respostas, suspendendo liberdades em nome da segurança sanitária.

Em 1918, os médicos tentaram de tudo: quinino, aspirina, sangrias, plasma de convalescentes. Nada disso foi reprimido, pois não havia saber centralizado. Já na pandemia recente, com maior conhecimento sobre a natureza viral das doenças, a lógica do tratamento precoce foi abandonada. Mesmo medicamentos com histórico de segurança, como a ivermectina, foram proibidos em muitos países. A repressão foi tão intensa que muitos profissionais passaram a receitar de forma clandestina. É uma ironia histórica: quanto mais conhecimento disponível, menos autonomia médica.

Essa assimetria entre conhecimento e autonomia também se revelou na gestão das vacinas. A vacinação foi promovida como solução única. Contudo, os dados de transmissibilidade entre vacinados e não vacinados mostraram que a proteção não era absoluta. Os efeitos colaterais sérios, ainda que raros, foram tratados como tabu. O princípio do consentimento informado foi violado: o cidadão não podia conhecer os riscos reais do uso e do não uso da vacina. A polarização jogou no mesmo saco aqueles que pediam mais transparência e os que negavam a pandemia. O debate público foi contaminado por uma estratégia de silenciamento.

Nessas condições, os mais vulneráveis foram os que mais sofreram. Nas duas pandemias, pobres morreram mais. Em 1918, pela ausência de saneamento e cuidado médico. Em 2020, pelo isolamento forçado em condições precárias, pela fome, pela dificuldade de acesso a atendimento de qualidade. O lockdown, que protegeu as elites em home office, expôs trabalhadores informais, entregadores e moradores de rua. A pandemia foi também uma expressão de desigualdade: o medo teve classe social.

Essa desigualdade pode ser medida com mais precisão por meio do índice de mortes por 100 mil habitantes. Ao analisar os dados globais, o Brasil aparece com cerca de 187, os Estados Unidos com 179, a Itália com 227, o México com 325 e a Rússia com 375. Reino Unido e Suécia, por sua vez, apresentam índices em torno de 127 e 105, respectivamente. Embora o Brasil tenha enfrentado dificuldades estruturais, sua mortalidade não foi desproporcional à de outros países ricos. Ainda assim, a retórica de caos absoluto no Brasil foi sustentada por setores que se beneficiaram da percepção de crise permanente.

No final, a pandemia da COVID-19 revelou um novo tipo de gestão política: a gestão do medo. A ciência foi instrumentalizada, a autonomia clínica reprimida e a liberdade de expressão sacrificada. O rótulo “negacionista” serviu para disciplinar o dissenso. O legado da pandemia não se mede apenas em mortes, mas também no impacto psicológico duradouro sobre a população. A política do medo pode até não ter sido a principal causa de mortes físicas, mas certamente abriu uma janela ampla para o adoecimento mental — uma consequência invisível, porém devastadora, da forma como a crise foi conduzida.

O êxito dessa estratégia política — a gestão do medo — pode ter inaugurado um novo paradigma de governança baseado no estado de alerta contínuo. Uma vez naturalizado o uso do medo como instrumento de disciplinamento social, sua aplicação tende a se expandir para além do campo sanitário: crises climáticas, instabilidades políticas e colapsos institucionais podem ser transformados em oportunidades para ampliar o controle sobre os indivíduos em nome da “salvação coletiva”. No Brasil e em outros países, já se observa o uso seletivo do medo em crises econômicas, ameaças institucionais e convulsões sociais, sempre justificando a centralização de decisões e o silenciamento de vozes dissidentes. Se a pandemia ensinou algo aos gestores do poder, foi que o medo é eficaz, rápido e difícil de contestar. Mas a democracia sobrevive apenas onde o medo não sufoca o debate. É preciso lembrar: o medo protege, mas também adoece. E pode, como neste caso, ter matado menos do que curado, mas ferido mais do que se admite.


Marco Aurélio Bittencourt Professor do Instituto Federal de Brasília – IFB , na área de gestão e negócios. Doutorado em Economia pela Unb.


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