Brasília, 22 de julho de 2025
O governo do Reino Unido está reconsiderando sua exigência de que a Apple forneça acesso a dados de usuários protegidos por criptografia de ponta a ponta, após intensa pressão por parte da administração Trump. A medida, inicialmente impulsionada pelo Ministério do Interior em janeiro, envolvia um pedido formal à Apple para criar uma “porta dos fundos” em seu sistema de armazenamento em nuvem mais seguro — algo que a empresa sempre se recusou a fazer.
Segundo fontes do alto escalão britânico, a manutenção da exigência poderia comprometer acordos comerciais e tecnológicos com os Estados Unidos, em especial em áreas estratégicas como inteligência artificial e fluxos internacionais de dados.
Ordem sigilosa gera reação inédita no setor de tecnologia
A solicitação britânica foi feita por meio de uma “notificação de capacidade técnica” emitida com base na Lei de Poderes Investigativos (Investigatory Powers Act), legislação controversa que permite que o governo exija acesso a dados criptografados em nome da segurança nacional. A lei também impõe sigilo absoluto às empresas notificadas, impedindo-as de informar até mesmo os clientes afetados.
Diante da ordem, a Apple optou por descontinuar, em fevereiro, a oferta de seu sistema de proteção avançada de dados no Reino Unido, e recorreu da medida no Tribunal de Poderes Investigativos (Investigatory Powers Tribunal), órgão que julga reclamações contra os serviços de inteligência britânicos.
Em um movimento raro de união, a Meta, dona do WhatsApp, juntou-se à Apple na disputa judicial, fortalecendo o argumento da indústria contra a quebra de criptografia em nome da vigilância estatal.
Vice-presidente dos EUA e Trump criticam duramente a medida
A pressão americana veio de figuras centrais do governo Trump. O vice-presidente JD Vance classificou a proposta do Reino Unido como um ataque à liberdade de expressão e à privacidade, temas sensíveis para os Estados Unidos, sobretudo no contexto de regulação tecnológica. Ainda como senador, Vance já havia se manifestado contra “criar portas dos fundos nas nossas próprias redes tecnológicas”, qualificando a ideia como “insana”.
O próprio presidente Donald Trump também interveio. Em fevereiro, comparou a exigência britânica às práticas autoritárias chinesas e teria dito diretamente ao premiê Keir Starmer: “Você não pode fazer isso”.
Estratégia digital do Reino Unido em xeque
O impasse ocorre em um momento delicado para o governo britânico, que busca se consolidar como um polo de inovação e atratividade para empresas de tecnologia americanas. No entanto, autoridades do próprio governo reconhecem que o Ministério do Interior conduziu mal o processo e agora tenta encontrar uma saída para o impasse.
“É um problema criado pelo próprio Ministério do Interior, e eles estão trabalhando em uma maneira de contorná-lo agora”, disse uma fonte envolvida no caso. Internamente, há divisões sobre como proceder, mas a tendência é de recuo, para evitar danos maiores à reputação e às parcerias internacionais do país.
Fontes: CPI e Ars Technica
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