Acordo UE–Mercosul: uma Nova Era para o comércio sustentável transatlântico

O Acordo UE–Mercosul representa mais do que uma liberalização tarifária: ele propõe uma nova gramática para o comércio internacional, baseada em valores compartilhados, sustentabilidade e cooperação.

Josefina Guedes

Em junho de 2025, o Parlamento Europeu publicou uma avaliação atualizada dos impactos econômicos, regulatórios e de sustentabilidade da vertente comercial do Acordo de Associação entre a União Europeia e o Mercosul — o EUMETA 2024. O estudo, solicitado pela Comissão de Comércio Internacional do Parlamento (INTA), representa um marco importante na análise das condições e consequências desse ambicioso tratado, que vem sendo negociado há mais de duas décadas.

O relatório destaca que, embora os efeitos macroeconômicos projetados sejam moderados, os ganhos políticos, geoestratégicos e ambientais inserem o EUMETA em um novo paradigma de acordos comerciais internacionais: aquele em que o livre-comércio se alia, necessariamente, à responsabilidade climática e ao desenvolvimento social.

Ganhos econômicos moderados, mas assimétricos

As simulações realizadas indicam um crescimento estimado do PIB de 0,1% para a União Europeia e de 0,3% para os países do Mercosul, com destaque para Argentina e Brasil. Esse diferencial deve-se, sobretudo, à maior dependência comercial do Mercosul em relação à UE, e à redução de tarifas em setores altamente sensíveis para os países sul-americanos.

Para o bloco europeu, os principais beneficiados são os setores industriais — máquinas, equipamentos de transporte e produtos químicos — que devem ampliar significativamente sua presença nos mercados do Mercosul. Já os países latino-americanos, por sua vez, tendem a registrar ganhos sobretudo no comércio agroalimentar, com aumento nas exportações de carnes, frutas, oleaginosas e açúcar (Hagemejer et al., 2025).

Um tripé para a sustentabilidade

O Acordo de 2024 incorporou um conjunto robusto de salvaguardas ambientais e sociais, respondendo às críticas que emperraram sua ratificação nos últimos anos. Três pilares sustentam essa nova abordagem:

  1. Cotas tarifárias (TRQs) para produtos sensíveis, como a carne bovina, asseguram limites quantitativos às importações, com tarifas reduzidas, protegendo o setor agropecuário europeu (Pelikan & Döbeling, 2020).
  2. A entrada em vigor do Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) reforça o controle ambiental, exigindo que exportações do Mercosul estejam desvinculadas de práticas ilegais ou predatórias (European Commission, 2023).
  3. A criação de um Fundo de Ajuste Agrícola, com orçamento previsto de 1 bilhão de euros, permitirá mitigar eventuais prejuízos aos agricultores europeus e apoiar sua transição para sistemas produtivos mais resilientes e sustentáveis (Claeys & Sapir, 2020).

Essas medidas constituem uma “rede de segurança tripla” — combinando mecanismos comerciais, regulatórios e orçamentários — que busca equilibrar abertura econômica e proteção socioambiental.

Uma arquitetura regulatória sofisticada

O EUMETA 2024 não é apenas um acordo de redução tarifária. Ele se insere numa arquitetura normativa mais ampla, que inclui:

  • o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM);
  • a Diretiva sobre Devida Diligência em Sustentabilidade Corporativa (EUCSDDD);
  • e diversas cláusulas de desenvolvimento sustentável incorporadas ao texto do acordo (European Parliament, 2025).

Juntas, essas iniciativas configuram um modelo europeu de governança do comércio internacional, no qual os fluxos comerciais devem obedecer a parâmetros climáticos, sociais e de direitos humanos.

Geopolítica e cooperação estratégica

Num momento de crescentes tensões geoeconômicas globais — marcadas por disputas comerciais, nacionalismo econômico e pressões sino-americanas — o Acordo UE–Mercosul desponta como um instrumento estratégico de aproximação política entre democracias ocidentais.

Para os países do Mercosul, trata-se de uma oportunidade histórica de diversificar seus parceiros comerciais, reduzir a dependência da China e elevar padrões produtivos. Para a União Europeia, é uma forma de reforçar sua presença econômica e normativa na América do Sul, consolidando alianças em áreas como energia verde, cadeia de valor agroalimentar e transição ecológica (Grieger & Macsai, 2025).

Conclusão: um novo modelo de acordos comerciais

O Acordo UE–Mercosul representa mais do que uma liberalização tarifária: ele propõe uma nova gramática para o comércio internacional, baseada em valores compartilhados, sustentabilidade e cooperação.

Apesar de desafios persistentes — como a necessidade de monitoramento efetivo das metas ambientais, o combate à informalidade no setor agrícola, ou a articulação com políticas internas de desenvolvimento — o EUMETA 2024 emerge como um exemplo de equilíbrio entre abertura econômica e compromisso ético.

Ao ratificá-lo, os países da UE e do Mercosul não apenas aprofundam seus laços econômicos, mas também reafirmam sua fé num comércio internacional orientado por regras, direitos e responsabilidade coletiva.

Referências Bibliográficas

  • Claeys, G., & Sapir, A. (2020). The European Globalisation Adjustment Fund: Has it delivered? Bruegel Policy Contribution.
  • European Commission. (2023). Regulation on Deforestation-free Products (EUDR). COM(2021) 706 final.
  • European Parliament. (2025). An update on the economic, sustainability and regulatory effects of the trade part of the EU-Mercosur Partnership Agreement. Directorate-General for External Policies, PE 754.476.
  • Grieger, G., & Macsai, D. (2025). Trade and Sustainability in EU-Mercosur Relations. European Parliamentary Research Service.
  • Hagemejer, J., Stoll, P.-T., Rudloff, B., & Mensah, K. (2025). An Update on the Economic, Sustainability and Regulatory Effects of the Trade Part of the EU-Mercosur Partnership Agreement. European Parliament, PE 754.476.
  • Pelikan, J., & Döbeling, J. (2020a). Impact of EU-Mercosur Tariff Quotas on Beef Trade. Thünen Institute.
  • Pelikan, J., & Döbeling, J. (2020b). Agricultural Safeguards and Tariff Quotas in EU Trade Agreements. Thünen Working Paper Series.

Josefina Guedes. Diretora da Guedes, Bernardo, Imamura Consultoria Internacional, Vice-presidente da Central Florida Brazilian & American Chamber of Commerce, membro do Conselho de relações Internacionais- CERI da Firjan, e diretora da Associação de Comércio Exterior do Brasil – AEB.


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Os acordos internacionais de comércio, e sua importância para a política de comércio exterior e industrial do Brasil. WebAdvocacy. Brasília, DF. Coluna de Josefina Guedes. 05 de setembro de 2022.

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