5ª edição do RIS: consolidação da sustentabilidade financeira no Brasil

A quinta edição do RIS consolida a autoridade brasileira como instituição de referência global em sustentabilidade financeira. Mais do que um exercício de transparência, o relatório representa um roteiro estratégico para a transformação do sistema financeiro nacional.

Leandro Oliveira Leite

O Banco Central do Brasil (BCB) apresentou em agosto de 2025 a quinta edição do Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticos (RIS)[1], consolidando uma trajetória iniciada em 2021 que posiciona a autoridade monetária brasileira na vanguarda internacional da regulação de sustentabilidade financeira. A publicação representa um marco evolutivo na transparência institucional e na integração de fatores ESG[2] ao arcabouço prudencial do sistema financeiro nacional.

Esta nova edição abrange um ciclo anual completo de atividades desenvolvidas pela autoridade monetária, apresentando balanço detalhado das iniciativas implementadas e delineando o horizonte estratégico para os próximos períodos. A participação do BCB em projetos governamentais de alcance nacional, incluindo a elaboração da taxonomia sustentável nacional, exemplifica a coordenação interinstitucional necessária para o avanço da agenda ESG no país.

Desde a primeira edição do RIS, o BCB tem aprimorado sistematicamente sua abordagem à sustentabilidade financeira. A quinta edição reflete não apenas a maturidade institucional alcançada, mas também a resposta proativa aos desafios impostos pelas mudanças climáticas e pelas exigências crescentes de transparência do mercado financeiro global.

O relatório se insere no contexto da Agenda BC#[3], estratégia institucional estruturada em quatro pilares fundamentais: inovação, inclusão, sustentabilidade e competitividade. Esta integração demonstra como a sustentabilidade deixou de ser um tema periférico para se tornar elemento central na supervisão prudencial e na formulação de políticas monetárias.

A evolução do RIS acompanha tendências internacionais observadas em jurisdições como União Europeia e Reino Unido, onde bancos centrais já incorporaram sistematicamente variáveis climáticas em seus processos decisórios. O Brasil, ao adotar essa abordagem, fortalece sua credibilidade junto a investidores institucionais internacionais e facilita a atração de capital para projetos sustentáveis.

O RIS 2025 consolida importante produção técnica desenvolvida pelo BCB na quantificação de riscos climáticos para o sistema financeiro. A autoridade monetária tem investido em modelagem econométrica sofisticada para estimar potenciais impactos econômicos decorrentes de cenários adversos de transição climática, fornecendo às instituições financeiras parâmetros objetivos para dimensionamento de possíveis perdas.

A construção da matriz de riscos estratégicos institucionais revela metodologia robusta de identificação e mensuração de incertezas que podem afetar o cumprimento da missão do BCB. A análise conjunta entre probabilidade de ocorrência e magnitude de impactos permite priorização eficiente dos recursos institucionais na gestão de riscos relacionados ao objetivo estratégico de “Promover finanças sustentáveis e contribuir para redução de riscos socioambientais e climáticos”[4].

A recente conclusão de pesquisa especializada em estabilidade financeira relacionada a fatores climáticos revela que o risco de crédito permanece como principal canal de transmissão de choques climáticos para o sistema financeiro. Para riscos físicos, os canais mais relevantes incluem danos a ativos de famílias e empresas, interrupção de atividades produtivas e impactos na produtividade agrícola. Já para riscos de transição, destacam-se aumentos de custos regulatórios e barreiras comerciais decorrentes de políticas internacionais de baixo carbono[5].

Estes desenvolvimentos técnicos representam evolução qualitativa na abordagem regulatória, migrando de orientações principiológicas para ferramentas quantitativas que permitem mensuração objetiva de riscos e oportunidades climáticas no setor financeiro brasileiro.

O RIS 2025 identifica oportunidades substanciais na expansão do mercado de finanças sustentáveis brasileiro. O crédito verde, que inclui financiamentos para projetos de energia renovável, eficiência energética e tecnologias limpas, apresenta potencial de crescimento exponencial, especialmente considerando os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil.

O período analisado pelo RIS 2025 registra mudanças estruturais no arcabouço regulatório brasileiro, com destaque para a institucionalização de obrigações de divulgação de informações sustentáveis pelas instituições financeiras. Esta evolução normativa reflete alinhamento estratégico com tendências regulatórias globais, posicionando o Brasil entre as jurisdições mais avançadas em transparência ESG.

No segmento rural, as modificações implementadas no manual operacional específico integram considerações ambientais aos tradicionais critérios de análise creditícia. A eficácia dessas medidas pode ser observada nos resultados do Bureau de Crédito Rural: desde 2020, quando foram implementados os primeiros bloqueios automáticos, até maio de 2025, foram impedidas mais de 16 mil operações irregulares, evitando desembolsos superiores a R$ 6,3 bilhões[6].

Estes números demonstram a importância da integração entre critérios ambientais e análise de crédito, evidenciando que sustentabilidade e prudência financeira são objetivos convergentes na prática supervisora.

A função supervisora do BCB tem incorporado ferramentas tecnológicas avançadas para aprimorar o monitoramento de riscos socioambientais. O desenvolvimento de soluções baseadas em inteligência artificial para análise automatizada de relatórios de auditoria representa salto qualitativo na capacidade de processamento de informações ESG.

Essa modernização tecnológica permite análises mais abrangentes e sistemáticas, identificando padrões e tendências que seriam difíceis de detectar através de metodologias tradicionais. A aplicação de IA na supervisão também aumenta a eficiência operacional e reduz o tempo necessário para identificação de riscos emergentes.

Complementarmente, a realização de análises horizontais para verificação do cumprimento de requisitos de gerenciamento de riscos socioambientais oferece visão sistêmica das práticas adotadas pelas instituições supervisionadas, facilitando a identificação de melhores práticas e áreas que requerem aprimoramento.

A gestão das reservas internacionais do BCB tem demonstrado alinhamento prático com os princípios de sustentabilidade promovidos pela própria instituição no âmbito supervisório. A estratégia de alocação crescente em títulos sustentáveis, implementada desde 2021, evidencia que critérios ambientais podem ser integrados a decisões de investimento sem comprometer os objetivos fundamentais de preservação de valor, liquidez e segurança.

Esta prática institucional fortalece a credibilidade regulatória do BCB, demonstrando que as diretrizes emitidas para o mercado são também aplicadas internamente. A expansão gradual desses investimentos contribui para o desenvolvimento do mercado internacional de títulos verdes e sinaliza aos gestores de portfólio a viabilidade de estratégias de investimento sustentável.

A experiência acumulada na gestão de investimentos sustentáveis também oferece insights valiosos para orientação das instituições supervisionadas, criando base empírica para recomendações regulatórias baseadas em evidências práticas.

O RIS 2025 documenta esforços sistemáticos de promoção da inclusão financeira e cidadania, reconhecendo que estabilidade sistêmica e justiça social são objetivos interdependentes. A supervisão de conduta tem priorizado a identificação e gestão de vulnerabilidades sociais, desenvolvendo metodologias para proteção de consumidores financeiros em situação de fragilidade.

A estratégia de investimento sustentável em reservas internacionais também contribui para o desenvolvimento do mercado global de green bonds[7], criando demanda institucional que incentiva a emissão desses instrumentos por outros países e organizações multilaterais.

A incorporação de riscos climáticos na análise macroeconômica representa uma evolução natural da política monetária brasileira. Choques climáticos podem afetar preços de commodities, produtividade agrícola e infraestrutura, com impactos diretos na inflação e na atividade econômica.

O BCB tem desenvolvido modelos econométricos que capturam essas interações, permitindo decisões de política monetária mais informadas e responsivas a choques climáticos. Esta abordagem integrada fortalece a credibilidade da autoridade monetária e sua capacidade de manter a estabilidade de preços em um ambiente de crescente volatilidade climática.

Além disso, a análise de riscos sistêmicos incorpora cenários climáticos adversos, permitindo identificar vulnerabilidades sistêmicas antes que se materializem em crises financeiras. Essa capacidade antecipadora é crucial para a manutenção da estabilidade do sistema financeiro nacional.

Um dos aspectos mais significativos do RIS 2025 é sua antecipação às mudanças regulatórias derivadas da adoção dos padrões internacionais do International Sustainability Standards Board (ISSB)[8]. Até 2028, instituições financeiras relevantes deverão elaborar relatórios de sustentabilidade alinhados com essas diretrizes globais, harmonizando práticas de divulgação entre diferentes jurisdições.

Essa convergência representa não apenas um desafio operacional para as instituições, mas também uma oportunidade de acesso a mercados de capitais internacionais. Investidores globais valorizam crescentemente a comparabilidade de informações ESG, e o alinhamento com padrões do ISSB facilita a atração de capital estrangeiro para o Brasil.

Por fim, o BCB também tem participado ativamente da Network for Greening the Financial System (NGFS)[9], rede internacional que reúne bancos centrais e supervisores financeiros comprometidos com a sustentabilidade. Essa participação facilita o intercâmbio de melhores práticas e o desenvolvimento de padrões harmonizados entre diferentes jurisdições.

A quinta edição do RIS sinaliza desenvolvimentos regulatórios importantes para o horizonte 2025-2028. A implementação gradual dos padrões ISSB exigirá investimentos significativos em sistemas de informação e capacitação técnica por parte das instituições financeiras.

Simultaneamente, espera-se maior sofisticação nos requerimentos de capital relacionados a riscos climáticos. O Comitê de Basileia tem avançado em diretrizes para incorporação desses riscos no Pilar 1 do acordo, o que pode resultar em mudanças nos requerimentos prudenciais brasileiros.

O BCB também sinaliza interesse crescente no desenvolvimento de uma taxonomia sustentável brasileira, ferramenta que classificaria atividades econômicas segundo critérios ambientais e sociais. Esta taxonomia seria fundamental para orientar investimentos sustentáveis e facilitar a precificação adequada de riscos ESG.

Assim, essa quinta edição do RIS consolida a autoridade brasileira como instituição de referência global em sustentabilidade financeira. Mais do que um exercício de transparência, o relatório representa um roteiro estratégico para a transformação do sistema financeiro nacional.


[1] Disponível em: https://www.bcb.gov.br/publicacoes/relatorio-risco-oportunidade

[2] ESG: Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança) – conjunto de critérios utilizados para avaliar o desempenho de empresas e investimentos em questões ambientais, sociais e de governança corporativa.

[3] Agenda BC#: Estratégia institucional do Banco Central do Brasil estruturada em quatro pilares: inovação, inclusão, sustentabilidade e competitividade. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/acessoinformacao/agenda_bc

[4] A matriz de riscos estratégicos utiliza modelo de percepção por consenso seguido de expert judgment (julgamento de especialistas) para identificação e mensuração de riscos que podem afetar objetivos estratégicos da instituição.

[5] PEF: Pesquisa de Estabilidade Financeira – levantamento realizado pelo BCB junto às instituições financeiras para identificar riscos sistêmicos, incluindo canais de transmissão de riscos climáticos físicos e de transição.

[6] Bureau de Crédito Rural: sistema de informações creditícias específico para o setor agropecuário que utiliza tecnologias como georreferenciamento para análise de riscos ambientais e creditícios.

[7] Green bonds: Títulos verdes – instrumentos de dívida cujos recursos são destinados exclusivamente ao financiamento de projetos com benefícios ambientais ou climáticos.

[8] ISSB: International Sustainability Standards Board (Conselho Internacional de Padrões de Sustentabilidade) – órgão criado pela IFRS Foundation para desenvolver padrões globais de divulgação de informações relacionadas à sustentabilidade. Mais informações em: https://www.ifrs.org/groups/international-sustainability-standards-board/

[9] NGFS: Network for Greening the Financial System (Rede para o Esverdeamento do Sistema Financeiro) – rede de bancos centrais e supervisores dedicada ao compartilhamento de melhores práticas e desenvolvimento de ferramentas de gestão de riscos ambientais e climáticos. Site oficial: https://www.ngfs.net


Leandro Oliveira Leite. Servidor público federal, analista do Banco Central do Brasil (BCB), atualmente trabalhando no CADE na área de condutas unilaterais, possui graduações em Administração, Segurança Pública e Gestão do Agronegócio e especialização em Contabilidade Pública. Tem experiência na parte de supervisão do sistema financeiro e cooperativismo pelo BCB, bem como, já atuou com assessor técnico na Casa Civil.


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Leandro Oliveira Leite

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Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticos retrata iniciativas do BC na promoção de sistema financeiro mais inclusivo e sustentável

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