Josefina Guedes
Introdução
A publicação da Agenda de Política Comercial dos Estados Unidos para 2026, acompanhada do Relatório Anual sobre o Programa de Acordos Comerciais, representa um marco importante na redefinição da estratégia econômica internacional norte-americana. O documento sinaliza a consolidação de uma abordagem que combina política comercial, segurança econômica e política industrial, refletindo uma transformação estrutural na forma como os Estados Unidos concebem sua inserção no sistema de comércio internacional.
Longe de se limitar à tradicional promoção da liberalização comercial, a política comercial norte-americana passa a desempenhar um papel central na reconstrução da base industrial doméstica, na redução de vulnerabilidades estratégicas nas cadeias globais de valor e na promoção de relações comerciais consideradas mais equilibradas e recíprocas.
Neste contexto, a agenda comercial dos Estados Unidos adquire relevância particular para países emergentes e economias exportadoras de commodities e produtos industriais intermediários, como Brasil e demais membros do Mercosul.
A reorientação estrutural da política comercial americana
O relatório do governo dos Estados Unidos apresenta um diagnóstico crítico sobre a evolução do sistema comercial internacional nas últimas décadas. Segundo o documento, a crescente abertura do mercado americano, combinada com práticas comerciais consideradas distorcivas por parte de alguns parceiros comerciais, teria contribuído para um processo de desindustrialização relativa da economia norte-americana.
Entre os fatores apontados pelo relatório destacam-se:
- déficits comerciais persistentes;
- transferência de capacidade produtiva para o exterior;
- aumento da dependência de cadeias globais concentradas em poucos países;
- práticas industriais consideradas desleais.
O documento observa que, nas últimas décadas, os Estados Unidos teriam perdido milhões de empregos industriais e dezenas de milhares de unidades produtivas, o que reforçou a percepção de que a política comercial deveria ser utilizada como instrumento de política econômica estratégica.
Nesse sentido, a nova orientação da política comercial norte-americana articula três objetivos principais:
- Reindustrialização e fortalecimento da base produtiva doméstica
- Redução de dependências estratégicas em cadeias críticas
- Reequilíbrio das relações comerciais internacionais
Setores estratégicos prioritários
A agenda comercial americana identifica um conjunto de setores considerados essenciais para a segurança econômica e tecnológica do país.
Entre os principais destacam-se:
- aço e metais estratégicos
- semicondutores
- energia e minerais críticos
- indústria farmacêutica
- tecnologias avançadas
- cadeias produtivas de defesa
Esses setores tendem a receber tratamento prioritário em políticas de comércio exterior, incluindo:
- medidas de defesa comercial;
- incentivos industriais;
- políticas de reshoring e nearshoring;
- acordos estratégicos de fornecimento.
A política comercial passa, assim, a operar como instrumento complementar da política industrial, reforçando uma tendência observada em diversas economias avançadas.
A redução da dependência da china
Um dos resultados destacados no relatório é a redução da dependência comercial em relação à China.
Segundo dados apresentados pelo governo norte-americano, o déficit comercial bilateral com a China registrou queda significativa em 2025, refletindo um processo mais amplo de diversificação geográfica das cadeias de fornecimento e de relocalização produtiva.
Essa estratégia tem sido operacionalizada por meio de diferentes instrumentos, entre os quais:
- medidas tarifárias e investigações comerciais;
- incentivos ao reshoring industrial;
- acordos estratégicos com países considerados parceiros confiáveis;
- estímulo a cadeias produtivas regionais.
Esse movimento tende a redefinir o mapa das cadeias globais de valor, com potenciais impactos para economias emergentes.
Instrumentos de política comercial e defesa comercial
A agenda comercial dos Estados Unidos reafirma o uso ativo de instrumentos de defesa comercial e de enforcement das regras comerciais.
Entre os mecanismos mais relevantes destacam-se:
- investigações antidumping e de subsídios;
- medidas de salvaguarda;
- investigações sob a Section 301;
- ações relativas a trabalho forçado e práticas ilícitas em cadeias produtivas;
- investigações comerciais conduzidas pela USITC.
O uso desses instrumentos reflete uma estratégia que privilegia a proteção de setores considerados estratégicos, ao mesmo tempo em que busca pressionar parceiros comerciais por maior reciprocidade e transparência regulatória.
Implicações para o Brasil
A nova orientação da política comercial americana apresenta implicações relevantes para o Brasil, tanto em termos de oportunidades quanto de riscos.
Entre as oportunidades potenciais destacam-se:
1. Integração em cadeias de nearshoring
A reconfiguração das cadeias produtivas globais abre espaço para maior integração de economias consideradas politicamente confiáveis ou economicamente complementares.
O Brasil possui vantagens relevantes em setores como:
- energia
- minerais críticos
- agronegócio
- biocombustíveis
Esses setores podem tornar-se estratégicos em uma lógica de segurança de abastecimento e diversificação de fornecedores.
2. Cooperação em transição energética
A crescente demanda por minerais estratégicos e energia de baixo carbono pode ampliar o espaço para parcerias entre Brasil e Estados Unidos em áreas como:
- hidrogênio de baixo carbono
- biocombustíveis avançados
- mineração estratégica.
3. Potencial expansão do comércio agrícola
O agronegócio brasileiro continua sendo altamente competitivo em diversos mercados globais, podendo beneficiar-se de ajustes nas cadeias de abastecimento internacionais.
Riscos para a indústria brasileira
Ao mesmo tempo, a nova estratégia americana também apresenta riscos relevantes para setores industriais brasileiros.
Entre os principais destacam-se:
Intensificação do uso de defesa comercial
A ampliação de investigações antidumping e de subsídios pode atingir setores industriais exportadores.
Pressões por reciprocidade tarifária
O relatório menciona diferenças significativas entre tarifas médias aplicadas pelos Estados Unidos e por diversos parceiros comerciais, incluindo economias emergentes.
Esse argumento pode ser utilizado para justificar:
- negociações tarifárias
- medidas unilaterais
- acordos bilaterais seletivos.
Reforço da competição industrial global
A reindustrialização americana, combinada com políticas industriais em outras economias avançadas, tende a intensificar a competição internacional em setores manufatureiros.
Implicações para o Mercosul
Para o Mercosul, a nova agenda comercial americana apresenta desafios estratégicos adicionais.
O bloco enfrenta atualmente três questões centrais:
- baixa integração nas cadeias globais de valor
- estrutura tarifária relativamente elevada
- limitada rede de acordos comerciais com grandes economias
Nesse contexto, a reconfiguração das cadeias globais pode gerar tanto riscos quanto oportunidades.
A capacidade do Mercosul de se beneficiar desse processo dependerá, em grande medida, de fatores como:
- modernização de políticas comerciais;
- ampliação de acordos de comércio e investimento;
- melhoria da competitividade industrial e logística.
Considerações Finais
A Agenda de Política Comercial dos Estados Unidos para 2026 evidencia uma transformação significativa na governança do comércio internacional.
A política comercial norte-americana passa a operar cada vez mais como instrumento de política industrial, segurança econômica e estratégia geopolítica, refletindo uma mudança mais ampla no paradigma da globalização.
Para o Brasil e o Mercosul, esse novo contexto exige uma abordagem estratégica que combine:
- diversificação de mercados
- inserção qualificada em cadeias globais de valor
- fortalecimento da competitividade industrial
- modernização da política comercial.
A forma como a região responderá a essa nova dinâmica será determinante para sua posição no sistema econômico internacional nas próximas décadas.
Referência Bibliográfica
Office of the United States Trade Representative.
2026 Trade Policy Agenda and 2025 Annual Report of the President of the United States on the Trade Agreements Program. Washington, D.C., 2026.
Josefina Guedes. Fundadora da Guedes, Bernardo, Imamura & Associados Consultoria Internacional, Vice-presidente da Central Florida Brazilian & American Chamber of Commerce, membro do Conselho de Relações Internacionais da Firjan, e diretora da Associação de Comércio Exterior do Brasil- AEB

