Acordo EUA–Argentina redesenha o tabuleiro comercial do Mercosul e pressiona setores estratégicos do Brasil

O Acordo EUA–Argentina sinaliza uma mudança estrutural no equilíbrio econômico e político do Cone Sul, com efeitos diretos sobre a indústria brasileira, o agronegócio, os serviços e a própria governança do Mercosul.

Josefina Guedes

O recente Acordo sobre Comércio e Investimentos entre os Estados Unidos e a Argentina, concluído em fevereiro de 2026, vai muito além de uma iniciativa bilateral voltada à facilitação comercial. Trata-se de um acordo profundo, com forte conteúdo regulatório e geopolítico, cujos efeitos se irradiam por toda a região. Para o Brasil, os impactos são relevantes, atingindo setores industriais estratégicos e colocando em xeque pilares centrais do Mercosul.

No setor de aço e tubos de aço, os riscos são imediatos. O acordo concede aos produtos norte-americanos um ambiente regulatório mais favorável no mercado argentino, com redução de barreiras técnicas, reconhecimento de normas e maior previsibilidade jurídica. Isso tende a provocar desvio de comércio, reduzindo a participação de fornecedores brasileiros em um mercado historicamente integrado às cadeias industriais do Brasil. O problema se agrava quando se considera que o acesso brasileiro ao mercado dos Estados Unidos permanece limitado por tarifas elevadas, investigações de defesa comercial e medidas associadas à agenda de segurança econômica.

Mas o impacto não se restringe à siderurgia. O agronegócio brasileiro também pode ser afetado. O acordo estabelece compromissos rigorosos em medidas sanitárias e fitossanitárias, alinhados aos padrões norte-americanos, criando vantagens regulatórias para exportadores dos EUA. Mesmo setores em que o Brasil é altamente competitivo podem enfrentar maior concorrência no mercado argentino, com perda de espaço relativo e menor previsibilidade regulatória no comércio intrarregional.

Outro eixo sensível é o de energia, mineração e minerais críticos. O acordo prioriza a atração de investimentos norte-americanos para projetos de petróleo, gás, infraestrutura energética e exploração mineral, com apoio explícito de instrumentos financeiros dos Estados Unidos. Esse movimento pode deslocar investimentos que tradicionalmente envolveriam empresas brasileiras, enfraquecer iniciativas de integração energética regional e fragmentar uma estratégia sul-americana coordenada para minerais essenciais à transição energética.

Na área de serviços, tecnologia e economia digital, o acordo consolida disciplinas avançadas que favorecem grandes empresas norte-americanas, incluindo a proibição de impostos digitais discriminatórios e de exigências de transferência forçada de tecnologia. Embora essas regras façam parte da nova geração de acordos comerciais, sua adoção bilateral, fora do Mercosul, cria assimetrias regulatórias e pressiona o Brasil a aderir a compromissos semelhantes sem o devido debate regional.

Esses impactos setoriais se somam a uma questão ainda mais estrutural: a compatibilidade do acordo com o Mercosul. Ao conceder preferências tarifárias e assumir compromissos regulatórios profundos de forma bilateral, a Argentina tensiona a Tarifa Externa Comum e enfraquece o princípio da negociação conjunta, fundamentos do bloco desde o Tratado de Assunção. Na prática, abre-se um precedente que contribui para a fragmentação da política comercial comum e reduz o poder de barganha coletivo do Mercosul.

Há ainda um componente geopolítico explícito. O acordo incorpora cláusulas relacionadas à segurança econômica, controles de exportação e investimentos estratégicos, alinhando a Argentina de forma direta à agenda internacional dos Estados Unidos. Esse alinhamento, não negociado no âmbito do Mercosul, pode gerar externalidades negativas para o Brasil, especialmente em cadeias produtivas integradas e em sua estratégia de inserção internacional.

O Acordo EUA–Argentina, portanto, não deve ser interpretado como um episódio isolado. Ele sinaliza uma mudança estrutural no equilíbrio econômico e político do Cone Sul, com efeitos diretos sobre a indústria brasileira, o agronegócio, os serviços e a própria governança do Mercosul. Para o Brasil, o desafio será duplo: proteger seus setores estratégicos e, ao mesmo tempo, reavaliar o futuro do Mercosul, definindo com clareza até que ponto a flexibilização bilateral é compatível com um projeto de integração que ainda se pretende comum.

Bibliografia essencial

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WTO – World Trade Organization. World Trade Report; Agreements on TBT, SPS and Subsidies.

WORLD STEEL ASSOCIATION. World Steel in Figures.

UNITED STATES – ARGENTINE REPUBLIC. Agreement on Reciprocal Trade and Investment (ARTI), fevereiro de 2026.


Josefina Guedes. Fundadora da GBI Consultoria Internacional, Vice-presidente da Central Florida Brazilian & American Chamber of Commerce, Direta da Associação de Comércio Exterior do Brasil -AEB e membro do Conselho de Relações Internacionais da FIRJAN

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