Leandro Oliveira Leite
O mercado de títulos privados do agronegócio brasileiro está vivendo uma transformação sem precedentes. Enquanto pesquisadores da PUC-Rio trabalham no projeto RWA Sustentável para tokenizar Cédulas de Produto Rural (CPR) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) verdes via blockchain[1], observamos a consolidação de um novo paradigma no financiamento agrícola que vai muito além da simples digitalização de ativos.
A revolução silenciosa dos instrumentos privados
O crescimento explosivo dos títulos privados do agro não é acidental. O agronegócio brasileiro atingiu R$ 2,72 trilhões em 2024, representando 23,2% do PIB nacional, e projeta-se para alcançar 29,4% em 2025, o maior patamar em 22 anos. Com o PIB do agronegócio crescendo 6,49% no primeiro trimestre de 2025[2], o setor privado assumiu o protagonismo no financiamento rural. Os números são eloquentes e o estoque total de títulos privados do agronegócio alcançou R$ 1,203 trilhão em novembro de 2024, crescimento de 31,5% em 12 meses[3]. A CPR registrou crescimento de 59% no período, enquanto as emissões na safra 2024/25 dispararam 68% até fevereiro[4].
Esta migração para instrumentos privados reflete uma mudança estrutural profunda. O modelo tradicional de crédito subsidiado está dando lugar a um ecossistema financeiro mais sofisticado, onde produtores rurais podem acessar capital diretamente do mercado de capitais, sem dependência exclusiva do Estado ou de intermediários bancários tradicionais.
A criação da CPR Verde pelo Decreto 10.828/2022⁴ sinaliza uma tendência irreversível. A sustentabilidade deixou de ser um “nice to have (bom ter)” para se tornar um requisito básico de acesso ao capital global. O projeto do LIFT Learning, ao desenvolver infraestrutura para negociação de ativos sustentáveis tokenizados, reconhece que critérios ESG não são apenas demandas de investidores conscientes, mas sim condições de competitividade no mercado internacional.
A tokenização de CPRs e CRAs verdes representa mais que uma inovação tecnológica, é uma resposta estratégica à necessidade de atrair capital estrangeiro para projetos rurais sustentáveis. Quando esses títulos podem ser emitidos, liquidados e negociados via blockchain pública com compliance regulatório e rastreabilidade ambiental⁵, o agronegócio brasileiro ganha acesso a um pool de investidores globais ávidos por oportunidades que combinem retorno financeiro com impacto socioambiental positivo.
Embora promissor, esse novo modelo enfrenta obstáculos significativos. A assimetria de informações ainda persiste, muitos investidores nacionais e internacionais desconhecem as oportunidades oferecidas pelos ativos do agronegócio[5]. Paralelamente, pequenos e médios produtores enfrentam dificuldades para acessar esses instrumentos, que exigem conhecimento técnico e garantias que nem sempre possuem.
O exemplo da aquicultura é emblemático. Apesar do potencial de crescimento do setor, a dependência histórica do crédito rural subsidiado – que representa apenas 1% dos recursos do Plano Safra – limita severamente o desenvolvimento da cadeia produtiva[6]. A transição para instrumentos privados poderia liberar esse potencial, mas requer capacitação dos produtores e desenvolvimento de produtos financeiros adequados às especificidades do setor.
As AgFintechs emergem como protagonistas nesta transformação, representando 25% das startups do agronegócio na categoria “antes da porteira”[7]. Essas empresas estão preenchendo lacunas críticas: simplificando processos, reduzindo custos de transação e criando pontes entre produtores rurais e investidores urbanos.
A parceria entre Banco Central, Fenasbac, Vert Capital e Gnosis no projeto RWA Sustentável exemplifica como a colaboração público-privada pode acelerar a inovação. Ao desenvolver padrões para tokenização de ativos sustentáveis e integração com o Drex (o Real digital), essa iniciativa pode posicionar o Brasil como líder global em finanças digitais aplicadas ao agronegócio.
O futuro dos títulos privados do agronegócio parece promissor, mas não está isento de riscos. A possibilidade de greenwashing, emissão de títulos supostamente verdes sem comprovação efetiva de práticas sustentáveis, representa uma ameaça à credibilidade do mercado[8]. A criação de mecanismos robustos de auditoria e certificação será fundamental para manter a confiança dos investidores.
Outro desafio é garantir que a sofisticação financeira não acentue desigualdades no campo. É essencial que os benefícios da tokenização e dos novos instrumentos financeiros alcancem não apenas grandes produtores, mas também cooperativas e agricultores familiares.
A convergência entre sustentabilidade, tecnologia blockchain e mercado de capitais está redefinindo o financiamento do agronegócio brasileiro. Iniciativas como o RWA Sustentável não são apenas experimentos acadêmicos, mas laboratórios para o futuro das finanças rurais.
O Brasil tem a oportunidade única de liderar essa transformação, aproveitando sua força no agronegócio para criar um novo paradigma de financiamento sustentável. O sucesso dessa empreitada dependerá da capacidade de equilibrar inovação tecnológica com inclusão social, eficiência de mercado com sustentabilidade ambiental.
Os próximos anos serão decisivos para determinar se conseguiremos construir um sistema financeiro rural mais eficiente, transparente e sustentável ou se permaneceremos presos aos gargalos do modelo tradicional.
[1] BANCO CENTRAL DO BRASIL. LIFT Learning aposta em tokenização de ativos sustentáveis no mercado global. Conexão Real, Edição 784, 26 de setembro de 2025. Disponível também em: https://www.terra.com.br/noticias/projeto-aposta-em-rwas-sustentaveis-no-mercado-global,15beaab8b4aa6cb6954e62ac35956a4377m4rv1c.html
[2] CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL. PIB do agronegócio registra crescimento de 6,49% no primeiro trimestre de 2025. Brasília: CNA, 17 jun. 2025.
[3] CANAL RURAL. Títulos do agronegócio crescem mais de 30% e atingem R$ 1,2 trilhão. 6 jan. 2025.
[4] MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO. Emissões de Cédulas de Produto Rural na safra atual cresceram 68% até fevereiro. Brasília: MAPA, 24 mar. 2025.
[5] CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA AGRICULTURA. Financiamento privado do agronegócio. Brasília: CNA, 2022.
[6] LEITE, Leandro Oliveira. Fomento à Aquicultura: Instrumentos Privados de Financiamento. Monografia (Graduação em Gestão de Agronegócios) – Universidade de Brasília, 2023, p. 59.
[7] EMBRAPA. Radar Agtech Brasil 2022. Brasília: Embrapa, 2022.
[8] Tokenização de Ativos Sustentáveis e Instrumentos Privados de Financiamento: Perspectivas para o Agronegócio Brasileiro e a Economia Verde Global. Documento de trabalho, 2025

