Adriana da Costa Fernandes
A mente humana é capaz de associar assuntos aparentemente muito diferentes por meio de processos cognitivos, gerando pensamentos complexos e inesperados. A isto se denominam atalhos mentais.
Era alta madrugada e eu lia quando, aleatoriamente, começou a tocar uma canção. Sem exatamente entender o motivo, em um blink, parei de ler e “surfei” a onda de um desses interessantes atalhos mentais, começando a escrever sobre algo totalmente diferente do que se abordava na canção. Do nada, minha mente foi tomada por reflexões acerca do agravamento do contexto ambiental mundial, tema sobre o qual venho pesquisando de forma muito interessada.
Quando a música foi composta, em 2020, o contexto de furacões, incêndios, sismos, ciclones, ondas de calor e de frio, tsunamis, tempestades e terremotos já assolavam diferentes Países, Regiões e Estados Brasileiros, especialmente, lugares como Nordeste, Minas Gerais, Tibet, Estados Unidos, Argentina, Guatemala, Nigéria, Mianmar e várias nações Europeias.
Segundo um Relatório, de maio de 2025, do Escritório da ONU para a Redução de Riscos de Desastres, a UNDRR, quem nasceu em 1990 possui hoje 63% (sessenta e três por cento) de chance de vivenciar algum tipo de catástrofe, como uma inundação, ao longo da vida. Já quem nasceu em 2025, conta com a probabilidade, porém, no patamar de 86% (oitenta e seis por cento). Não resta dúvida, portanto, do quão exponencialmente caótico o ambiente ambiental global vem se tornando. Basta a comparação de dados de 2020 até agora.
Ultimamente, até mesmo as chamadas “Cidades Inteligentes” vêm sendo cenário de colapsos ambientais. Da mesma forma, ecossistemas inteiros têm se aproximado do chamado “Ponto de Não Retorno”.
Em reação, os urbanistas e ambientalistas começaram a desenvolver novos conceitos de bem-viver. O de “Cidades para Pessoas”, concebendo um planejamento urbano voltado para a vida e para a experiência humana, e procurando transformar cidades consideradas densas, em locais habitáveis, sociáveis, sustentáveis, verdes e que priorizam a saúde, a interação social e a qualidade de vida dos Cidadãos. Já o conceito de “Cidade de 15 Minutos” vem sendo defendido de forma a que as necessidades básicas do homem possam ser atendidas a uma rápida e curta distância, seja, até mesmo, a pé ou de bicicleta.
Sobre o mar, do que se sabe é que o volume gritante de plásticos direcionados aos Oceanos vêm contaminando, inclusive, a água potável. Isto, uma vez que os plásticos se dissolvem em micropartículas que chegam às torneiras das casas, aos comércios e aos animais. Posteriormente, ao certo, diretamente ao prato dos homens. Exato. O plástico virou iguaria e o ser humano paga caro por isso, em diversos sentidos.
No Mar Arábico, por exemplo, mais especificamente em Mumbai, na Índia, uma cena frequente é a do pescador, preparando sua rede, com o barco envolto em um mosaico de plásticos multicoloridos, de vários tamanhos e densidades. Ao menos, neste início de setembro (Dia 1º), o Primeiro-ministro Indiano Narendra Modi formalizou uma importante Missão chamada “Índia Limpa”, também conhecida como “Missão Swachh Bharat”, que envolve saneamento básico e campanhas de comunicação voltadas para mudanças sociais e comportamentais.
Em outra frente, um jovem holandês criou o “Projeto Ocean Cleanup”, focado em áreas oceânicas críticas e com o objetivo de remover até 80% (oitenta por cento) do lixo até 2030.
O referido Relatório da UNDRR alerta, ainda, que, no Brasil, a perda de produtividade e de receitas vinculadas à Amazônia Meridional tende a girar em torno de US$ 5,6 bilhões (cinco ponto seis bilhões de dólares) para o setor de soja e US$ 180,8 bilhões (cento e oitenta ponto oito bilhões de dólares) para o setor de carne bovina até 2050. Isto, em se tratando de um cenário de governança ambiental fraco e sem controle do desmatamento. O prejuízo poderá superar os custos de conservação, estimados em US$ 19,5 bilhões (dezenove ponto cinco bilhões de dólares) e representando quase 10 (dez) vezes mais do que o levantado até então. Isto, em um cenário de governança ambiental forte. O risco, assim, é de que o desmatamento contínuo da Amazônia venha a causar mudanças e transformações irreversíveis no ecossistema, e via de consequência, em todo o Globo.
A UNDRR considera fundamental que sejam evitadas 3 (três) espirais causadores de um possível colapso sistêmico ambiental: (i) o nível de endividamento aliado à perda de receita; (ii) o surgimento de áreas arriscadas e sem acesso, inclusive, sem a cobertura de seguradoras e, por fim; (iii) a configuração de um cenário extremo de necessidades humanitárias constantes e cíclicas.
A Entidade aborda, ainda, que, diante do atual cenário, é premente que sejam realizados investimentos considerados “mais inteligentes”, aptos a ampliar a capacidade de resiliência a desastres locais, bem como aliviando o peso sobre as finanças públicas. Resta claro, pois, que o suporte empresarial precisa ir além da simples mitigação de riscos, contribuindo com estratégias de regeneração dos sistemas.
A COP 30 se aproxima e o debate sobre a atuação privada foi endereçado durante a programação oficial da Rio Climate Action Week (RCAW), ocorrido na Casa Firjan, no Rio de Janeiro. Já no decorrer da São Paulo Climate Week, a Confederação Nacional da Indústria – CNI apresentou o trabalho “Sustainable Business COP” (SB COP), objetivando a implementação de parcerias e soluções concretas. Na ocasião, foram debatidas, primordialmente, questões relativas à obtenção de importantes fontes de financiamento, de forma a permitir a conversão dos compromissos climáticos em efetivas entregas.
Já era tarde quando parei de escrever. Ou melhor, cedo. E eu parei pensando, além das cidades e do mar, em meu profundo desejo de que, ao fim, e o quanto antes, o Mundo acorde a tempo de se salvar.
Adriana da Costa Fernandes. Advogada com expertise em Direito Público e em Direito Privado, com foco especial em Regulatório, Administrativo, Conatitucional e Ambiental, mas igualmente em Cível Estratégico, Consumidor e RELGOV, tendo atuado em mercados e segmentos relevantes, em grandes empresas, nacionais e multinacional, em associação setorial, em agências reguladoras, em escritórios AA e consultoria. Mestranda em Direito Constitucional, Pós-graduanda em Direito Civil, com MBA em Marketing, Especializações em Energia Elétrica, RELGOV, Processo Civil e Fundamentos da Arbitragem, além de contar com várias Certificações em instituições de renome em Legal, Finanças, Marketing, Business, Gestão e Liderança e Bioética.
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Leia o Relatório de Redução de Riscos de Desastres da UNDRR
Relatório Redução do risco de desastres

