Dayane Garcia Lopes Criscuolo
Em meio à tantas notícias narrando as mais diversas atrocidades no mundo, sempre me pego pensando se o ser humano ainda tem a capacidade de amar. Como toda generalização é perigosa, e como insisto em manter a minha fé nas pessoas, prefiro acreditar que o ser humano ainda tem muito o que nos surpreender de maneira positiva.
No entanto, um fato ocorrido há pouco com uma pessoa próxima me fez refletir, também, sobre uma outra questão. Qual a dificuldade encontrada por uma pessoa em enxergar a outra como um semelhante? Onde está a empatia das pessoas? Onde está o amor?
É comum brincadeiras no sentido de que o ser humano precisa ser estudado, mas ouso dizer que, na verdade, ele precisa de tratamento, porque já não é mais capaz de perceber que está afundado na mais profunda vaidade e egoísmo. E digo isso porque, faz alguns dias, tive notícias sobre uma criança que, após oito anos de uma vida feliz e saudável, foi identificada com um tipo de câncer muito grave na cabeça. Sua mãe e irmão, que viviam com ela em outro Estado, largaram tudo para virem a São Paulo, visando garantir a ela melhor tratamento.
Após essa criança passar por uma cirurgia delicada, infelizmente, recebeu a notícia de que ficaria tetraplégica, tendo, ainda, a sua fala sido comprometida pela doença. A mãe, com o apoio da avó, dividia-se entre o hospital, a casa e o outro filho. Nos momentos em que a criança saia do hospital, a mãe a transportava de carro, e da garagem até o apartamento (e vice-versa), utilizava um aparelho, semelhante a uma bicicleta. Quando tal aparelho não estava sendo utilizado, deixava-o estacionado em sua vaga de garagem.
Qual não foi a surpresa desta mãe quando, em um dos dias de retorno do hospital, não encontrou o aparelho no local onde deixou. Ao procurá-lo, soube que um funcionário do prédio havia retirado o aparelho do local e colocado no bicicletário do edifício, alegando que ali era o local mais adequado para guardar a tal “bicicleta”.
Crente de que receberia o apoio dos demais moradores do prédio, a mãe contou a história da filha no grupo de whatsapp e pediu, encarecidamente, que deixassem que ela estacionasse o aparelho em sua vaga de garagem, o que foi negado pelo conselho do prédio, que alegou, uma vez mais, que o bicicletário, distante da vaga da garagem da mãe, era o local mais adequado para deixar o aparelho.
Ao receber esse retorno, que parecia ter sido dado por um computador ligado a uma desinteligência artificial, frio e sem qualquer empatia, me senti revoltada e triste. Revoltada pela incapacidade de pessoas, que se dizem instruídas, não demonstrarem qualquer tipo de respeito e caridade diante da difícil situação que aquela família passava, fazendo com que o dia a dia que já era árduo, ficasse um pouco pior. Revoltada, porque aquele aparelho não atrapalhava ou interferia em absolutamente nada no trânsito da garagem ou na vida das pessoas que ali passavam. Triste, porque na minha concepção, essa mãe nem precisaria ter se exposto tanto, contando todas as mazelas que estavam acometendo a sua vida nos últimos meses, já que diante desta situação, natural seria, que ao menos os seus vizinhos, lhe dessem o mínimo de apoio.
Diante deste cenário, refleti sobre o que é, de fato, necessário para que um ser humano respeite o outro, tenha empatia, compreenda as dificuldades enfrentadas pelo seu semelhante e o ajude. Seria necessário estar inserido na mesma situação de sofrimento? Ou seja, apenas quando a carapuça serve é que os olhos se abrem? Quem são essas pessoas? Será que elas ainda têm a capacidade de amar?
E o que mais espanta é que essa situação vivida por essa mãe, o é todos os dias por milhares e milhares de mães, tias, avós, avôs, pais, filhas, filhos e netos, que têm deficiência ou que têm alguém na família com deficiência, já que essas pessoas enfrentam não só a falta de acessibilidade, mas a invisibilidade e o desrespeito. Por fim, não é demais ressaltar que as pessoas com deficiência possuem leis para protegê-las, mas tais regramentos são exaustivamente desrespeitados, existindo uma normalização inaceitável desta situação.
Vamos cuidar do outro. Vamos nos respeitar mais. Vamos espalhar mais amor.

