O acirramento da intolerância política amplia o retorno esperado da intolerância

Editorial

Temos assistido atônitos a escalada da intolerância política em nosso país. Discursos de parte a parte acirram os ânimos dos militantes mais comprometidos com a causa dos seus candidatos.

Esquerda e direita apresentam as suas vertentes de intolerância, mas o fenômeno fica complexo quando a vociferação sai do mundo das palavras (xingamentos etc) e caminha para as vias de fato (assassinatos etc).

Quais são as consequências deste acirramento para o Brasil? Isso é o que pretendemos responder neste editorial.

Vamos começar com o exemplo das camisas de times em estádios de futebol pelos torcedores comuns, ou seja, aqueles que não participam de nenhuma torcida organizada.

O torcedor comum se recente de ir ao estádio com a camisa do seu time, pois tem medo de ser agredido pela torcida rival. Este tipo de intolerância faz com que os torcedores menos propensos ao risco deixem, no limite, de ir ao estádio de futebol, aumentando assim, a probabilidade de que os torcedores com camisas de times em estádios sejam mais propensos a suportar o risco da intolerância.

O comportamento do torcedor comum resulta na elevação do nível médio de  intolerância dentro dos estádios, sendo necessária a tomada de medidas de segurança, como a separação de torcidas no estádio, maior policiamento etc., fato esse que tem implicações no preço dos ingressos, haja vista que o aparato de segurança eleva os custos e o resultado é um efeito negativo no bem-estar dos torcedores.

Este fenômeno também acontece na política. Os eleitores não diretamente ligados a nenhum partido político tendem a se sentir mais receosos de expor as suas opiniões e de fazer qualquer manifestação que os vincule a determinada posição política, aumentando-se esse índice quanto maior for a intolerância política existente.

Os políticos são mais propensos a mudar comportamentos e crenças que os eleitores. Poderíamos dizer que o comportamento do político oscila de acordo com as necessidades dos seus eleitores e tais movimentos, até mesmo os mais imponderáveis, tendem a ser por eles seguidos. Ao se trabalhar a intolerância com tamanha perspicácia, vê-se que a intolerância média entre eleitores aumenta e, como consequência, maior é a chance de eleitores com espírito intolerante se associarem e, com isso, maior é a chance de políticos intolerantes serem escolhidos.

Portanto, assim como a intolerância nos estádios de futebol reduzem o bem-estar dos torcedores, também a intolerância política reduz o bem-estar da população. Nos estádios, o bem-estar dos torcedores é afetado em razão da necessidade de elevar os custos com segurança, custos estes que afetam diretamente os preços dos ingressos. Na política, o bem-estar é afetado negativamente porque ao ampliar a intolerância média dos eleitores amplia-se a intolerância média dos representantes políticos eleitos.

O efeito negativo da intolerância na política não é diferente para o bem-estar da população, pois todo o tipo de intolerância tende a reduzir a presença daqueles que não concordam com a intolerância, pelo simples fato de que a intolerância traz consigo a violência, ou, em outras palavras, o acirramento da intolerância política amplia o retorno esperado da intolerância.

Compartilhe nas redes sociais