Sociedade entre guetos e clusters
Artigo de opinião
Adriana da Costa Fernandes
A Geração X cresceu vendo pais e avós, os chamados Boomers, construírem MOSAICOS. De tecidos, de histórias, de relações e de suas próprias vidas. E essa geração prometeu que escreveria uma história inovadora, autêntica, absolutamente inesquecível.
Promessa cumprida, de fato. Muros de Berlim derrubados. Internet criada ao fim da guerra fria. Computadores pessoais massificados. Maçãs azuis como sonho de consumo espalhadas por todo lado. Foi lindo. Parecia que em pouco tempo já se estaria num carro voador. Smartphones como extensão do braço, da mente e para alguns, da alma. Saudades do inesquecível Black.
Infelizmente uma sociedade um tanto mais cinza, em alguns aspectos humanos, ainda que envolta em desenvolvimento, conexão e novas ideias. Já enfrentamos um tempo de responder loucamente 300 e-mails ao dia porque imediatismo era a regra. Sim, o número era este.
Estudamos Marketing nas melhores escolas, no boom do MBA, pela ótica incrível de seu Papa e criador, Philip Kotler, aplicando no dia a dia os antigos quatro Ps – Produto, Preço, Praça (Distribuição / Logística) e Promoção (Publicidade) revisitados com a chegada do Digital. Com isso, veio junto o TQC (Total Quality Control) colocando os americanos na linha de produção das indústrias em substituição aos conceitos japoneses, até então, utilizados e só mais tarde resgatados para não ser mais esquecidos. Daquilo que é bom, não se tira da memória.
Da X surgiram os filhos, as gerações Y e Z, cada qual com diversas essencialidades marcantes, mas com a interessante característica comum de resgatar naturalmente alguns hábitos de pais e avós, como a de reconstruir os ditos MOSAICOS, em tricôs, crochês, roupas, na vida e nas misturas de sabores e hábitos de vida.
Mais conservadores, por natureza que os X, em alguns pontos, mas não em outros, talvez adotem este comportamento intrínseco, como uma espécie natural da dita memória coletiva do mundo. Lembrando, inclusive, Habermas, quando cita Jean Piaget e sua abstração reflexionante, enquanto mecanismo de aprendizagem, onde os elementos formais são escondidos no conteúdo cognitivo, e onde os esquemas de ação do sujeito cognoscente são trazidos à consciência, de forma diferenciada e reconstruídos na razão superior imediata. Ou não, talvez simplesmente, segundo os espíritas, apenas estejam de volta.
O fato é que quando se observa hoje o mundo assim, tão polarizado, dividido e inquestionavelmente plural, o que realmente significa, diversidade de coisas ou pessoas reunidas em um mesmo espaço físico, do perceptível é que estas sociedades diversas são muito pouco íntegras e coesas quanto, ao menos, seus pontos de mútua concordância. Do que se vê é que, normalmente os grupos se mantêm distantes e não costumam se apoiar.
De fato, com um pouco mais de calma, seja num trânsito parado, na fila que ainda eventualmente é preciso ser enfrentada em algum serviço obsoleto de loja de telefonia, a fim de resolver algo que nunca é possível pelo call center ou porque você é simplesmente diferente e gosta de observar tudo ao redor, é nítido perceber que a Sociedade Brasileira é totalmente constituída de guetos e de clusters. Sim, de conceitos que não são paralelos, nem interligados, mas que se aplicam.
A ponderação é, a qual deles você pertence agora, neste estágio da vida? Qual grupo a/o aceita, qual não? Por quê? Isto a/o incomoda? O julgamento fere, a discriminação dói ou você simplesmente segue em frente sem piscar? Você nunca sequer se imaginou mudando de patamar social? Do que eu estou falando, afinal? Você nunca sequer pensou nisto?
Lamenta-se, amigo(a), leitor(a), se você não gostou da expressão, gueto, mas é isso.
– Alto, lá, minha Sra.! Eu sou da classe média, não pertenço a nenhum gueto. Moro no Plano Piloto da Capital do meu País.
Será?
Atenção, não confundir com subúrbio ou favela, que tem lá seu estilo inconfundível. Gueto (do italiano ghetto) é considerado, em verdade, um bairro ou região de uma cidade onde apenas se localiza um grupo específico de membros de dada etnia, raça, comportamento ou qualquer outro grupo, aí vem, considerado minoritário naquela comunidade, isto frequentemente devido a conjecturas sociais locais, pressões ou circunstâncias econômicas. Da mesma forma, em face apenas da adoção de um determinado estilo de vida que resulte em tratamento discriminatório. É inconteste que o fator econômico influencia tantas vezes diretamente no social e no antropológico, mas outras tantas vezes não.
Em outra linha mais especifica, como sempre se fala, matricial, os clusters e, atente-se, uma conceituação um pouco distorcida e ajustada em essência pelo marketing digital, que entende que o conceito foi criado só por ele, quando na verdade sempre existiu. Os clusters que podem ser enquadrados em fatias de consumo, segmentação, tribos, em razão da demografia, do interesse, de comportamentos variados, da recorrência, de ocasiões, de questões financeiras ou sazonais/eventos.
Os próprios dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por exemplo, de 2023 são amostras do que se fala. A forma como são apresentados tendem a indicar o quanto o homem social é completamente clusterizado. Note:
- Ensino superior no DF: 33,9%, em 2019, para 37%, em 2022;
- Mais mulheres com ensino médio completo do que homens: 72,2% contra 70,1%;
- Redução na diferença entre cor ou raça: em 2022, 80,1% das pessoas de cor branca haviam completado pelo menos o ciclo educacional básico, contra 65,5% das pessoas autodeclaradas pretas ou pardas. Essa diferença, ainda alta, diminuiu de 2016 para 2022, passando de 17,1% para 14,6%.
Não se está avaliando os números, perceba-se. Nem o fazer ou não a pesquisa. Siga além na ideia.
Quem estuda e mora onde? Quem trabalha e faz o quê? Quais as profissões dos pais? Qual o nível das relações? Quem são os amigos? Onde frequentam? A que shoppings, cinemas, lojas, comércios em uma cidade tão pequena estas pessoas vão? Que lanchonetes e restaurantes frequentam? Se chegará a tal conceituação, provavelmente na pesquisa, de classe A, B, C, etc.
Em bullets, matricialmente, em detalhes, os clusters. E respondendo às perguntas, o chamado encontro dos guetos, de acordo com o cruzamento entre estas perguntas e outras.
Isto é BI (Business Intelligence). Isto é digital. Isto é IA (Inteligência Artificial) na vida cotidiana.
Ou seja, de forma ampla, teoricamente grupos tenderiam a se harmonizar e estreitar relações por meio da tecnologia, entretanto, se tem percebido facilmente cotidiana resistência à medida, até mesmo, que se torna mais fácil identificar o comportamento do outro por meio de detalhes, por exemplo, como a linguagem, uma expressão coloquial, seus interesses e publicações.
É fato, igualmente, que o abismo entre gerações diminuiu dentro dos mesmos grupos sociais econômicos e quem antes dificilmente se conheceria, por estar em cidades diversas, hoje se aproxima, passando a desenvolver trabalhos conjuntos em prol de um mesmo interesse ou causa. E por meio de um olhar, onde, nessa hora, 30 anos de diferença ao invés de afastar, une e agrega profundo carinho e afeto.
Ainda assim, observando ao redor, a simbologia do gueto segue lá, porque os grupos sociais e econômicos representados são diversos. E ainda não foi possível, infelizmente, estabelecer um debate, de fato, ainda que heterogêneo, em idade, cor, raça, idade, formação, mas unânime em efetivo suporte e espeito, onde um, de fato, aceite o outro, sem julgamentos, sem pré-conceitos, mas com efetivo acolhimento e amor. O receio da aproximação concreta está presente e vem de ambos os lados. O medo do não acolhimento e de não ser aceito por si vem tanto top down quanto bottom up.
E enquanto fórum, o Parlamento Nacional é, sem dúvida, o núcleo mais democrático para que isto se realize e ocorra. Não somente por palestras e debates, mas por meio de trabalhos efetivos que integrem e fomentem a convivência das diferenças.
E nesta rota, temos sido, mais uma vez, testemunhas de um novo e forte legado da Bancada Feminina da Câmara dos Deputados sob o comando de uma flor. Elas, as flores como sempre. Rumo aos 50% de paridade de gênero em breve, o quanto antes.
Assim, que seja tempo, igualmente, das gerações se reaproximarem e se respeitarem mais, posto que não podemos nos manter inertes em dar as mãos enquanto sociedade. Pois, como diria Nelson Rodrigues, “O jovem tem todos os defeitos do adulto e mais um: o da inexperiência.”
E incomodar-nos a aceitar o outro é preciso.
Adriana da Costa Fernandes. Advogada com atuação em 3 eixos: Direito Público; Infraestrutura e Tecnologia (em especial Telecom, TI, Digital, Energia Elétrica e Ferrovias) e Cível Estratégico (foco em Consumidor e Contratos). Mestranda em Direito Constitucional pela UNINTER PR sob a tutela da Profa. Dra. Estefânia Barboza e com tese sobre PRAGMATISMO CONSTISTUCIONAL HUMANISTA na Era Digital, unindo Direito Constitucional, Digital, Filosofia e Ciência Política. Pesquisadora vinculada ao NEC CEUB DF sob a mentoria da Profa. Dra. Christine Peter da Silva e ao IDP – Observatório Constitucional do Professor André Rufino do Vale. Aluna da Escola de Magistratura do Distrito Federal – ESMA DF. Pós-graduada (MBA) em Marketing pela FGV RJ, especializada em Relações Governamentais e Institucionais (RELGOV) pela CNI / Instituto Euvaldo Lodi (IEL), com Extensão em Energia Elétrica pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e detentora de diversas titulações em instituições de renome Nacional e Internacional. Consultora e Parecerista. Com experiência em empresas renomadas, de portes expressivos e atuação em mercados relevantes e agências governamentais. Atualmente com escritório próprio e atuação voltada para Tribunais Superiores, Tribunal de Contas da União e CARF.
