Por que Celso Furtado não antecipou o modelo coreano? Uma interpretação à luz do Espaço-Produto
Celso Furtado não deixou de perceber o modelo coreano por insuficiência intelectual, mas porque esse modelo ainda não havia amadurecido historicamente e porque seu programa de pesquisa respondia a uma pergunta distinta daquela que hoje orienta os estudos comparativos sobre desenvolvimento.

Marco Aurélio Bittencourt
A obra de Celso Furtado permanece como uma das mais sofisticadas interpretações estruturais do desenvolvimento brasileiro. Em seus trabalhos da década de 1960, o autor identificou corretamente diversos obstáculos que limitavam o crescimento econômico nacional, como a concentração de renda, a deformação da estrutura da demanda, a dependência tecnológica e a fragilidade do sistema nacional de decisões. Entretanto, ao leitor contemporâneo surge uma questão inevitável: por que Furtado, apesar da profundidade de sua análise, não identificou o caminho seguido posteriormente pela Coreia do Sul? A resposta exige considerar simultaneamente o contexto histórico em que escreveu e os limites analíticos do paradigma estruturalista então dominante.
Em primeiro lugar, deve-se recordar que, quando os textos referencia de estudo da economia brasileira foram elaborados, simplesmente ainda não existia um “modelo coreano” plenamente formado. A Coreia do Sul encontrava-se apenas no início de sua industrialização acelerada, possuía renda per capita semelhante ou inferior à brasileira e suas grandes empresas nacionais ainda davam os primeiros passos. Samsung, Hyundai, LG e POSCO estavam longe de representar os conglomerados globais que se tornariam nas décadas seguintes. Assim, não havia ainda uma experiência suficientemente consolidada para servir de referência internacional ou para ser incorporada à reflexão teórica do período.
Essa constatação histórica, contudo, não explica inteiramente a ausência da Coreia na análise furtadiana. Mais importante é compreender que o problema investigado por Furtado era outro. Seu objetivo consistia em explicar por que a industrialização brasileira, após décadas de expansão, havia perdido dinamismo. A pergunta central não era como determinados países obtiveram sucesso, mas por que a economia brasileira havia entrado em um processo de desaceleração estrutural. Toda a arquitetura de seu argumento foi construída para responder a essa questão específica, privilegiando fatores internos da economia nacional.
Por essa razão, sua investigação concentrou-se nas chamadas deformações estruturais. O autor atribuiu papel decisivo à concentração da renda, ao perfil estreito da demanda agregada, ao atraso agrícola, à dependência tecnológica e ao reduzido grau de autonomia do sistema nacional de decisões; em caráter obviamente de captura da elite do regime politico, mesmo na ditadura militar . Esses elementos, em sua interpretação, limitavam simultaneamente a expansão do mercado interno e a capacidade de transformação produtiva do país. A crise brasileira decorria, portanto, do próprio formato assumido pelo processo de industrialização por substituição de importações, e não de falhas ocasionais da política econômica. Embora muitos autores entendam, incluindo eu mesmo, que o caráter de captura tinha em seu interesse próprio o modelo de sucatas, exatamente como se deu com a industrialização automobilística pós-Juscelino Kubitschek.
O estruturalismo latino-americano possuía ainda outra característica importante: sua unidade básica de análise era a estrutura econômica nacional. A preocupação central recaía sobre a organização dos setores produtivos, sobre a distribuição da renda, sobre a capacidade de planejamento do Estado e sobre a relação entre centro e periferia. O desvio analítico providencial às elites locais. Ainda que Furtado atribuísse grande importância ao progresso tecnológico, este aparecia principalmente como uma variável incorporada às estruturas produtivas mediante políticas públicas, e não como resultado da dinâmica organizacional das empresas e de suas redes produtivas.
Foi exatamente nesse ponto que a experiência coreana evoluiu em uma direção distinta. O sucesso da Coreia não decorreu apenas da proteção industrial ou da atuação do Estado, mas da construção deliberada de um sistema produtivo articulado em torno de grandes empresas nacionais, capazes de coordenar extensas cadeias de fornecedores, absorver tecnologia, competir internacionalmente e induzir processos contínuos de inovação. A política industrial coreana organizou empresas, tecnologia, financiamento, universidades e comércio exterior em um único sistema integrado, cuja lógica ultrapassava a simples substituição de importações, em destaque o cumprimento rigoroso de metas de desempenho empresarial.
Entretanto, essa arquitetura institucional somente se tornou plenamente visível nas décadas de 1980 e 1990, quando o extraordinário desempenho da economia coreana passou a despertar atenção internacional. Foi nesse período que autores como Alice Amsden, Robert Wade, Ha-Joon Chang e Joseph Stiglitz aprofundaram o estudo do desenvolvimento asiático, demonstrando que o êxito coreano estava associado não apenas à intervenção estatal, mas também à criação de capacidades tecnológicas e empresariais próprias e acordos de performance rigorosos. Quando Furtado escreveu suas análises, essas evidências históricas ainda não existiam.
Sob essa perspectiva, pode-se afirmar que Furtado identificou corretamente diversos componentes do problema, mas não chegou a formular uma teoria sobre a organização interna do sistema produtivo. Sua preocupação concentrava-se na estrutura macroeconômica e institucional da economia, enquanto aspectos como empresas-âncora, redes nacionais de fornecedores, densidade tecnológica e mecanismos permanentes de difusão da inovação permaneceram relativamente ausentes de sua formulação teórica. Não se trata propriamente de um erro, mas de uma limitação decorrente do contexto histórico e das questões que buscava responder.
É justamente nesse espaço analítico que o conceito de Espaço-Produto oferece uma contribuição complementar. Em vez de tomar apenas o Estado ou os grandes agregados macroeconômicos como unidade principal de análise, essa abordagem desloca a atenção para a arquitetura concreta do sistema produtivo. Empresas-âncora, empresas estratégicas, serviços especializados e seus encadeamentos tecnológicos passam a constituir o núcleo explicativo do desenvolvimento econômico. A competitividade deixa de depender exclusivamente da política industrial e passa a refletir a densidade e a integração do próprio espaço produtivo nacional.[1]
Essa mudança produz uma interpretação distinta do caso coreano. O desenvolvimento não resulta apenas da existência de planejamento estatal, mas da capacidade de organizar um conjunto reduzido de empresas nacionais que irradiam inovação, produtividade e aprendizado tecnológico para milhares de fornecedores distribuídos por toda a economia. O foco desloca-se da proteção dos setores para a construção de redes produtivas capazes de produzir conhecimento, ampliar encadeamentos e sustentar vantagens competitivas permanentes no mercado internacional.
Sob essa ótica, também se torna possível reinterpretar o próprio pensamento de Celso Furtado. Muitas das condições por ele consideradas essenciais permanecem válidas: autonomia nacional, progresso tecnológico, ampliação do mercado interno, transformação estrutural e coordenação do investimento continuam sendo pilares do desenvolvimento. Contudo, esses objetivos passam a ser compreendidos como resultados emergentes de uma estrutura produtiva suficientemente densa para gerar inovação de maneira contínua, e não apenas como consequências diretas da ação planejadora do Estado.5 Entretanto, o aspecto primordial do modelo coreano que não se reaplicou aqui e alhures foi o do cumprimento obrigatório de metas para se contar com o subsídio salvador. Por aqui, apenas houve doação do estado e como se viu o único estímulo fiscal pretendido; o resultado : o sonho durou, enquanto durava a pílula fiscal.
Em síntese, Celso Furtado não deixou de perceber o modelo coreano por insuficiência intelectual, mas porque esse modelo ainda não havia amadurecido historicamente e porque seu programa de pesquisa respondia a uma pergunta distinta daquela que hoje orienta os estudos comparativos sobre desenvolvimento. A teoria do Espaço-Produto pode, assim, ser interpretada menos como uma ruptura com o estruturalismo clássico e mais como sua evolução natural. Ela preserva a preocupação furtadiana com as estruturas econômicas, mas acrescenta um novo elemento explicativo: a densidade organizacional do sistema produtivo nacional como fundamento último da competitividade e do desenvolvimento de longo prazo. A par dos elementos tecnologia e competitividade, deve-se acrescentar outro ausente em Furtado. Trata-se do compromisso recíproco entre empresa versus estado. O apoio fiscal tem contrapartida social e econômica, não é mão de via única.
[1] Ver Espaço-Produto , Bittencourt, M.A. (2026), mimeo.
Marco Aurélio Bittencourt. Professor do Instituto Federal de Brasília – IFB , na área de gestão e negócios. Doutorado em Economia pela Unb.

