Cautela monetária, expectativas desancoradas e os desafios do próximo ciclo

O próximo ciclo da política monetária brasileira dependerá, em grande medida, da consistência entre política fiscal, estabilidade externa e credibilidade institucional do regime de metas.

Leandro Oliveira Leite

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15,00% ao ano, na sua 276ª reunião[1], reforça a postura de prudência do Banco Central diante de um cenário ainda marcado por incertezas relevantes, tanto no ambiente internacional quanto na dinâmica doméstica de inflação.

A manutenção do patamar restritivo de juros indica que o processo de convergência inflacionária segue em curso, mas exige atenção constante, sobretudo em um contexto de expectativas ainda acima das metas estabelecidas pelo regime de metas de inflação.

No plano externo, o Banco Central destacou que o ambiente global continua instável, influenciado pela condução da política econômica nos Estados Unidos e por seus reflexos sobre as condições financeiras internacionais.

Para economias emergentes como o Brasil, esse cenário impõe desafios adicionais, especialmente diante de tensões geopolíticas e de possíveis movimentos abruptos de fluxos de capitais, câmbio e preços de commodities.[2]

No âmbito doméstico, os indicadores recentes apontam[3] uma trajetória de moderação do crescimento econômico, embora o mercado de trabalho ainda apresente sinais de resiliência.

Ao mesmo tempo, apesar de algum arrefecimento observado na inflação cheia e em medidas subjacentes, os níveis permanecem acima do objetivo central perseguido pela autoridade monetária. Esse quadro reforça a necessidade de manter a política monetária em território contracionista por tempo suficiente para garantir a reancoragem das expectativas.

As projeções captadas pela pesquisa Focus[4] continuam sugerindo inflação acima da meta nos próximos anos, o que representa um dos principais desafios para a credibilidade do processo desinflacionário.

Expectativas persistentemente elevadas tendem a dificultar o trabalho do Banco Central, pois influenciam decisões de preços, salários e contratos, prolongando a inércia inflacionária.

O Copom também reconheceu[5] que o balanço de riscos segue mais complexo do que o usual. Entre os fatores que podem pressionar a inflação para cima, destacam-se a possibilidade de desancoragem prolongada das expectativas, uma inflação de serviços mais resistente do que a prevista e combinações adversas entre política fiscal e choques externos que possam resultar em depreciação cambial persistente.

Por outro lado, o Comitê também considera riscos de baixa, como uma desaceleração doméstica mais intensa, uma perda de dinamismo global mais pronunciada ou mesmo recuos relevantes nos preços internacionais de commodities[6].

Esse conjunto de incertezas explica a ênfase recorrente do Banco Central em uma estratégia guiada por dados, calibrada reunião a reunião, sem compromissos automáticos com trajetórias rígidas de juros.

Outro aspecto importante mencionado na comunicação é o acompanhamento atento dos impactos do ambiente geopolítico e da política fiscal doméstica sobre os ativos financeiros e sobre a transmissão da política monetária[7].

Em economias com elevada sensibilidade a choques externos, a interação entre juros, câmbio, risco soberano e expectativas torna-se central para a eficácia da política monetária.

Ao manter a Selic em 15%, o Banco Central sinalizou que o nível atual de restrição ainda é considerado compatível com a convergência da inflação ao redor da meta no horizonte relevante.

Ao mesmo tempo, reafirma que a política monetária também tem papel de suavizar flutuações excessivas da atividade e contribuir para um ambiente macroeconômico mais estável, condição essencial para o crescimento sustentável.

O Copom também deixou aberta a possibilidade de que, caso o cenário esperado se confirme, possa iniciar um processo gradual de flexibilização monetária já na próxima reunião.

No entanto, essa transição dependerá do grau de confiança na trajetória de convergência da inflação, da evolução das expectativas e da consolidação dos canais de transmissão da política monetária.

O momento atual, portanto, é caracterizado por um equilíbrio delicado, em que a inflação apresenta sinais de desaceleração, mas ainda exige vigilância, pois o crescimento perde força, mas o mercado de trabalho permanece firme e as expectativas continuam pressionadas, exigindo uma postura de cautela.

Em síntese, o próximo ciclo da política monetária brasileira dependerá, em grande medida, da consistência entre política fiscal, estabilidade externa e credibilidade institucional do regime de metas.


[1] Banco Central do Brasil. Comunicado da 276ª Reunião do Copom. Brasília, 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br.

[2] BIS – Bank for International Settlements. Annual Economic Report 2025: Global Financial Conditions. Basileia, 2025.

[3] Banco Central do Brasil. Relatório de Inflação. Brasília: BCB, edições recentes.

[4] Banco Central do Brasil. Pesquisa Focus – Expectativas de Mercado. Brasília, 2026.

[5] Banco Central do Brasil. Ata do Copom – Avaliação de riscos inflacionários. Brasília, 2026.

[6] FMI – Fundo Monetário Internacional. World Economic Outlook Update. Washington, 2025.

[7] OCDE. Monetary Policy Transmission in Emerging Markets. Paris, 2024.


Leandro Oliveira Leite. Servidor público federal, analista do Banco Central do Brasil (BCB), atualmente trabalhando no CADE na área de condutas unilaterais, possui graduações em Administração, Segurança Pública e Gestão do Agronegócio e especialização em Contabilidade Pública. Tem experiência na parte de supervisão do sistema financeiro e cooperativismo pelo BCB, bem como, já atuou com assessor técnico na Casa Civil.

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